UNIGRANRIO - Universidade do Grande Rio (RJ) — Prova 2020
Marilena, 23 anos, traz Bernardo e Francisco, 4 e 5 anos, respectivamente, ao grupo de crianças da UBS para participarem de uma atividade de brincadeiras. Os dois ficam bastante quietos durante o grupo e apesar dos convites das outras crianças, não fazem parte da roda de brincadeiras. Na hora da pesagem e do exame físico direcionado, Dr. João tenta puxar assunto com os meninos, mas eles apenas sorriem timidamente e a mãe parece apreensiva para ir logo embora. No exame físico não apresentavam nenhuma alteração. Ao final do grupo, a ACS Ana conversa com o médico da ESF sobre a família e conta que só consegue conversar com Marilena quando a encontra na rua, pois o marido não deixa estranhos entrarem na casa e que já ouviu dos vizinhos que ele era muito trabalhador e não deixava faltar nada em casa, mas era muito rígido com os meninos. Diz que quando entregou o convite para participarem do grupo contou para ela que Francisco algumas vezes urinava na cama e que gostaria de marcar uma consulta para ele. A partir desse relato, a conduta mais adequada pelo médico da família é orientar a ACS a:
Suspeita de violência intrafamiliar + sinais indiretos (enurese, isolamento) → abordagem ativa e conjunta mãe/crianças.
A suspeita de violência intrafamiliar, mesmo sem queixa direta ou achados físicos evidentes, exige uma abordagem ativa e sensível da equipe de saúde da família. A enurese noturna e o comportamento retraído das crianças são sinais de alerta que justificam uma investigação aprofundada e o agendamento de consulta para a família.
A violência intrafamiliar é um grave problema de saúde pública, com impactos profundos na saúde física e mental de crianças e adultos. Na Atenção Primária à Saúde (APS), a equipe de Saúde da Família (ESF) desempenha um papel fundamental na identificação precoce e na abordagem desses casos, muitas vezes complexos e velados. Sinais indiretos, como alterações de comportamento (timidez excessiva, isolamento) e queixas somáticas (enurese noturna), podem ser indicativos de estresse ou abuso. A conduta do médico da família deve ser proativa e sensível. Não se deve esperar uma queixa explícita ou evidências físicas de violência para agir. A criação de um vínculo de confiança com a família, o acolhimento e a escuta qualificada são essenciais. O agendamento de uma consulta para a mãe e as crianças, com o objetivo de aprofundar a investigação e planejar uma abordagem ativa, permite que a equipe avalie a situação de forma mais completa e ofereça o suporte necessário. A discussão em equipe multiprofissional (com psicólogo, assistente social do NASF) é importante, mas não deve atrasar a abordagem inicial. A prioridade é a segurança e o bem-estar das crianças. A notificação compulsória é um passo legal e ético em casos confirmados ou de forte suspeita, e a articulação com a rede de proteção (Conselho Tutelar, serviços especializados) é crucial para garantir a proteção e o acompanhamento adequado das vítimas.
Sinais de alerta incluem mudanças de comportamento (isolamento, agressividade, timidez excessiva), queixas somáticas inespecíficas (dores de cabeça, abdominais), enurese/encoprese de início recente, baixo rendimento escolar, medo de um dos pais ou de ir para casa.
A ESF tem papel crucial na identificação precoce, acolhimento, escuta qualificada, notificação compulsória e articulação com a rede de proteção (Conselho Tutelar, assistência social, psicologia) para garantir a segurança e o suporte à vítima e família.
A abordagem deve ser gradual e sensível, criando um ambiente de confiança. Pode-se agendar consultas individuais com a criança e o cuidador, realizar visitas domiciliares, e discutir o caso em equipe para planejar a melhor estratégia de intervenção, sempre priorizando a segurança.
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