UFSM/HUSM - Hospital Universitário de Santa Maria (RS) — Prova 2015
Leia o texto apresentado a seguir para responder a questão seguinte.Este foi extraído do artigo SERVIDONI, A. B. et al. Perfil da automedicação nos pacientes otorrinolaringológicos. Rev. _rás. Otorrinolaringol. [online]. 2006, vol.72, n.1, pp. 83-88. ISSN 0034-7299.Objetivo: Descrever os hábitos de automedicação de pacientes portadores de afecções otorrinolaringológicas. Material e Método: Estudo transversal descritivo. Utilizamos como instrumento um questionário de múltipla escolha sobre automedicação, distribuído a pacientes atendidos na clínica de otorrinolaringologia do Instituto Penido Burnier, durante o mês de julho de 2003.Resultado: Do total de 150 questionários entregues, obtivemos retorno de 72 (48%). Das 17 questões apresentadas, houve dificuldade por parte dos pacientes em responder apenas aquela sobre a quantidade de princípios ativos da medicação, apesar de toda explicação fornecida. A faixa etária foi 15 a 72 anos, com média 38 anos. Aproximadamente 83% dos pacientes relataram já ter usado ou comprado medicação sem apresentação da receita médica. (...) Os mais utilizados foram: analgésicos/antitérmicos (90%), seguidos pelos antigripais (78%). Os antibióticos apareceram em oitavo lugar (11%). Com relação aos motivos ou doenças que os pacientes acreditavam possuir que justificassem a automedicação, observamos: as cefaleias (76%), seguidas por resfriados/gripes (74%) e por febre (56%). Já as otites apareceram em último lugar (12%).Conclusão: Há necessidade de campanhas informativas quanto aos riscos da automedicação, além da devida fiscalização do mercado farmacêutico pelas autoridades competentes.A partir da leitura do texto do quadro acima, é possível afirmar que as evidências apresentadas por este artigo estão comprometidas pelo seguinte erro metodológico:
Baixa taxa de resposta (<60-80%) → Viés de não respondentes (ameaça à validade externa).
Quando uma parcela significativa da amostra convidada não participa (neste caso, 52% de perda), os resultados podem não representar a população original, gerando viés de não respondentes.
A análise crítica de artigos científicos é uma competência essencial para o médico residente. Estudos transversais, como o citado sobre automedicação em otorrinolaringologia, são vulneráveis a diversos vieses. O viés de não respondentes é particularmente insidioso porque o pesquisador muitas vezes não conhece as características de quem não respondeu, tornando difícil a correção estatística do erro. Na prática, isso significa que as conclusões sobre a prevalência de automedicação (83% no estudo) podem estar distorcidas se os pacientes que não devolveram o questionário tiverem hábitos de saúde diferentes. Além disso, o texto menciona dificuldades em responder sobre princípios ativos, o que poderia sugerir um viés de aferição, mas a perda massiva de 52% da amostra é o erro metodológico mais gritante e primário a ser identificado.
O viés de não respondentes ocorre quando os indivíduos que optam por não participar de uma pesquisa possuem características sistematicamente diferentes daqueles que respondem. Isso é comum em estudos baseados em questionários voluntários. Se a taxa de resposta for baixa (geralmente abaixo de 60-70%), o pesquisador não pode garantir que a amostra final seja representativa da população-alvo, o que compromete a generalização dos resultados (validade externa).
O viés de seleção é um termo amplo que engloba qualquer erro na escolha dos participantes. O viés de não respondentes é um tipo específico de viés de seleção que acontece após o convite para o estudo, quando a perda de seguimento ou a recusa de participação não é aleatória. Por exemplo, se apenas pacientes com sintomas graves responderem a um questionário sobre automedicação, a prevalência do hábito será superestimada ou subestimada dependendo do comportamento desse grupo específico.
Não existe um número mágico universal, mas na literatura científica, taxas de resposta acima de 80% são consideradas excelentes, enquanto taxas abaixo de 50-60% levantam sérias dúvidas sobre a validade do estudo. No caso da questão apresentada, a taxa foi de apenas 48%, o que é um indicativo clássico de viés de não respondentes, pois mais da metade da amostra pretendida não forneceu dados.
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