INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2022
Uma mulher, moradora de cidade com 600.000 habitantes, procurou a Unidade Básica de Saúde de referência para se consultar com o médico da Estratégia de Saúde da Família por dor no braço, antebraço e punho direitos. Durante a anamnese, o médico detectou que a paciente apresentava esses sintomas há 6 meses com piora ao longo do tempo, mas que não a impediam de trabalhar com digitação de textos em uma empresa de computação. Ela relatou que, durante a pandemia da COVID-19, muitas digitadoras haviam sido demitidas e que aquelas que tinham permanecido estavam trabalhando sem pausas para descanso, frequentemente trabalhando além do horário regular, sem remuneração adicional, e que muitas também apresentavam queixas similares às dela. Ao exame físico, a única alteração observada foi dor à palpação do antebraço e braço direitos.Considerando essa situação, faça o que se pede nos itens a seguir.a) Cite a principal hipótese diagnóstica para o caso apresentado. Justifique sua resposta.b) Descreva o plano (propedêutico, terapêutico, educativo e de seguimento) adequado ao caso.c) Liste dois problemas biopsicossociais evidenciados no relato da paciente.
Dor crônica em digitadores + pressão laboral → Pensar em LER/DORT e fatores biopsicossociais.
O diagnóstico de LER/DORT exige nexo causal entre a atividade laboral e os sintomas, considerando não apenas a biomecânica, mas a organização do trabalho e o contexto psicossocial.
A LER/DORT não constitui uma doença única, mas um conjunto de afecções musculoesqueléticas (como tendinites, sinovites e síndromes compressivas) relacionadas ao trabalho. Na Atenção Primária à Saúde, o médico da Estratégia de Saúde da Família desempenha papel crucial na identificação do nexo causal. A anamnese deve ir além dos sintomas físicos, explorando a 'história ocupacional': como o trabalho é feito, quais as ferramentas, qual o ritmo e como é a relação com a chefia. O contexto da pandemia de COVID-19 trouxe desafios adicionais, como o aumento do teletrabalho sem condições ergonômicas adequadas e a precarização das relações trabalhistas. O tratamento eficaz da LER/DORT raramente é alcançado apenas com fármacos; ele exige uma abordagem biopsicossocial que considere o sofrimento mental do trabalhador e a necessidade de intervenções na organização do trabalho. A notificação via CAT é obrigatória em casos suspeitos ou confirmados de doenças relacionadas ao trabalho, sendo um instrumento de proteção ao trabalhador e de vigilância em saúde.
A principal hipótese diagnóstica é LER/DORT (Lesões por Esforços Repetitivos / Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho). A justificativa baseia-se na história clínica de dor crônica (6 meses) em membros superiores (braço, antebraço e punho) em uma paciente cuja atividade profissional (digitação) envolve movimentos repetitivos, postura estática e sobrecarga cognitiva. O nexo causal é reforçado pela descrição da organização do trabalho: ausência de pausas, jornada prolongada e pressão psicológica (medo de demissão), além da existência de colegas com sintomas similares, o que caracteriza um nexo epidemiológico importante.
O plano deve ser multidimensional: 1) Propedêutico: Avaliação clínica detalhada e, se necessário, exames complementares (como eletroneuromiografia ou ultrassom) para identificar lesões específicas. 2) Terapêutico: Analgesia escalonada, anti-inflamatórios na fase aguda e fisioterapia. 3) Educativo: Orientações sobre ergonomia, importância das pausas e exercícios de alongamento (ginástica laboral). 4) Seguimento: Monitoramento da evolução dos sintomas, avaliação da capacidade funcional e, fundamentalmente, a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) para fins epidemiológicos e previdenciários, além de articulação com a empresa para adaptações no posto de trabalho.
Os problemas evidenciados incluem: 1) Fatores Organizacionais e Psicológicos: A pressão por produtividade, a ausência de pausas para descanso e a jornada de trabalho excessiva sem remuneração adicional geram estresse crônico. 2) Insegurança Laboral: O medo da demissão, exacerbado pelo contexto da pandemia de COVID-19 e pelas demissões prévias no setor, atua como um potente estressor psicossocial que contribui para a cronificação da dor e dificulta a recuperação. Esses elementos demonstram que a patologia não é meramente física, mas fruto de uma organização do trabalho adoecedora.
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