Hepatite A: Marcadores de Gravidade e Insuficiência Hepática

UERJ/HUPE - Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ) — Prova 2015

Enunciado

Uma menina de nove anos é levada pela mãe para atendimento, devido à queixa de náuseas e vômitos alimentares há três dias, acompanhados de diminuição da aceitação da dieta. A mãe refere, ainda, mudança na cor da urina e nega outros sintomas. A história social aponta para más condições sanitárias, mas as imunizações disponíveis na rede pública estavam atualizadas e a história familiar mostra que, além dos pais, um irmão de quatro anos e outro de dez meses de idade, todos saudáveis, moram com a paciente. O exame físico mostra uma escolar em bom estado geral, lúcida, cooperativa, atenta ao meio, corada, hidratada, acianótica, anictérica e com as extremidades bem perfundidas; PA = 100 x 55 mmHg e FC = 84 bpm; a palpação do abdome revela-se dolorosa no hipocôndrio direito e a percussão mostra uma hepatimetria de 7 cm. O exame urinário demonstrou: densidade de 1.020, ausência de nitrito e glicose, presença de urobilinogênio e bilirrubina ++, 4 leucócitos e 3 hemácias por campo; a bilirrubina sérica total era de 1,3 mg%, com 0,9 mg% da fração direta, a alanina aminotransferase de 380 U/L, a aspartato aminotransferase de 495 U/L, a gamaglutamil transpeptidase de 65 U/L, a fosfatase alcalina de 450 U/L, a glicemia de 80 mg%, a albuminemia de 4,5 mg%, o tempo de protrombina de 10 segundos e o INR de 1,0. Uma sorologia para hepatite A revelou IgG e IgM reagente. Considerando esse caso, cite dois exames laboratoriais, entre os solicitados no caso que, se anormais, indicariam gravidade da disfunção hepática.

Alternativas

Pérola Clínica

TAP/INR prolongado e hipoglicemia = sinais de falência hepática aguda.

Resumo-Chave

Na hepatite aguda, a gravidade não é medida pelas transaminases (lesão), mas sim pela função de síntese (TAP/INR) e metabólica (glicemia).

Contexto Educacional

A hepatite A é geralmente uma doença autolimitada na infância, mas uma pequena porcentagem de casos pode evoluir para hepatite fulminante. A fisiopatologia envolve a resposta imune do hospedeiro contra os hepatócitos infectados, resultando em inflamação e necrose. O diagnóstico de gravidade baseia-se na detecção de disfunção orgânica, sendo a coagulopatia e a encefalopatia os pilares da insuficiência hepática aguda. Laboratorialmente, a avaliação da função de síntese é prioritária. O Tempo de Protrombina (TAP) e o INR são os exames mais fidedignos para monitorar a evolução. A hipoglicemia e a queda da albuminemia (embora esta última tenha meia-vida longa e seja menos útil na fase aguda) também sinalizam falência metabólica. O manejo desses casos exige monitorização em unidade de terapia intensiva e avaliação precoce para transplante hepático.

Perguntas Frequentes

Por que o Tempo de Protrombina (TAP) é um marcador de gravidade?

O fígado é o principal local de síntese da maioria dos fatores de coagulação (I, II, V, VII, IX, X). Como o Fator VII tem uma meia-vida muito curta (cerca de 4 a 6 horas), o Tempo de Protrombina (ou o INR) reflete rapidamente qualquer queda na capacidade de síntese proteica do fígado. Um prolongamento significativo do TAP que não corrige com vitamina K é um dos critérios diagnósticos mais precoces e sensíveis para insuficiência hepática aguda grave.

Qual a importância da glicemia na hepatite aguda?

O fígado desempenha um papel central na homeostase da glicose através da glicogenólise e gliconeogênese. Em quadros de necrose hepática maciça, essas funções são perdidas, levando à hipoglicemia. A presença de hipoglicemia em um paciente com hepatite aguda é um sinal de alarme crítico, indicando que a massa funcional de hepatócitos está severamente comprometida, sendo um marcador de prognóstico reservado.

Transaminases (AST/ALT) indicam gravidade na hepatite?

Não necessariamente. As transaminases são marcadores de integridade celular (necrose ou inflamação do hepatócito). Embora na hepatite aguda elas atinjam valores muito altos (frequentemente > 1000 U/L), o seu valor absoluto não se correlaciona diretamente com a função hepática ou com o prognóstico. Curiosamente, uma queda súbita das transaminases acompanhada de piora do TAP e aumento da bilirrubina pode indicar 'exaustão' hepática (necrose maciça), um sinal de extrema gravidade.

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