Virilização Feminina: Diagnóstico de Tumores Ovarianos

UFRGS/HCPA - Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS) — Prova 2022

Enunciado

Paciente de 22 anos consultou por piora importante da acne na face e no dorso nos últimos 6 meses e por amenorreia há 4 meses. Inicialmente, atribuiu o quadro à dieta inadequada. Submeteu-se a um programa de educação alimentar e perdeu 6 kg, no entanto a acne não melhorou. Negou doenças crônicas ou cirurgias prévias. O pai tem diabetes melito tipo 2, e a mãe, hipertensão e obesidade. Referiu não ser usuária de drogas ilícitas, álcool ou tabaco. A pressão arterial era de 135/75 mmHg, e o IMC, de 42 kg/m². Vinha apresentando pelos mais grossos no mento, lábio superior e queixo e acne nodular na face, nas costas e no tórax. A inspeção pélvica mostrou clitóris hipertrófico; o restante do exame não revelou alterações. O toque bimanual foi prejudicado devido à obesidade. Exames laboratoriais indicaram testosterona total de 7,13 ng/ml (valor de referência: 0,14-0,76 ng/ml) e sulfato de DHEA de 127 µg/dl (valor de referência: 35 430 µg/dl). Que diagnóstico, dentre os abaixo, é o mais provável?

Alternativas

  1. A) Síndrome dos ovários policísticos.
  2. B) Deficiência de 21-hidroxilase.
  3. C) Carcinoma de adrenal.
  4. D) Tumor de células de Leydig.

Pérola Clínica

Testosterona muito ↑ (>2x LSN) + DHEA-S normal + virilização rápida → Tumor ovariano produtor de androgênios.

Resumo-Chave

A paciente apresenta virilização grave e rápida (acne, hirsutismo, clitoromegalia, amenorreia) com testosterona total extremamente elevada (7.13 ng/ml, quase 10x o limite superior da normalidade) e DHEA-S normal. Este perfil laboratorial, especialmente a testosterona muito alta com DHEA-S normal, é altamente sugestivo de tumor ovariano produtor de androgênios, como o tumor de células de Leydig, e afasta causas adrenais ou SOP.

Contexto Educacional

O hiperandrogenismo em mulheres é uma condição comum, sendo a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) a causa mais frequente. No entanto, a presença de virilização grave e de rápido início, como hirsutismo acentuado, acne nodular, amenorreia e clitoromegalia, deve levantar a suspeita de causas mais raras e potencialmente graves, como tumores produtores de androgênios. Estes tumores podem ser de origem ovariana (ex: tumor de células de Leydig, tumor de células da granulosa-teca) ou adrenal (ex: carcinoma adrenal). A fisiopatologia envolve a produção autônoma e excessiva de androgênios. O diagnóstico diferencial é crucial e se baseia nos níveis hormonais. Níveis de testosterona total extremamente elevados (geralmente >2-3 vezes o limite superior da normalidade para mulheres) com níveis normais de sulfato de DHEA (DHEA-S) são altamente sugestivos de um tumor ovariano. Se o DHEA-S estivesse muito elevado, a suspeita recairia sobre a adrenal. A SOP, por sua vez, cursa com elevações moderadas da testosterona. A investigação diagnóstica prossegue com exames de imagem, como ultrassonografia pélvica e/ou ressonância magnética, para localizar o tumor. O tratamento definitivo para tumores produtores de androgênios é a remoção cirúrgica. O prognóstico depende do tipo e estágio do tumor, mas a detecção precoce é fundamental para um desfecho favorável. Para residentes, é vital reconhecer os 'red flags' que diferenciam o hiperandrogenismo benigno e comum (SOP) de condições neoplásicas, garantindo uma investigação e manejo adequados e oportunos.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais de virilização que indicam uma causa grave de hiperandrogenismo?

Sinais de virilização grave incluem hirsutismo de rápido início e progressão, acne nodular ou cística, alopecia androgênica, amenorreia, aumento da massa muscular, engrossamento da voz e, mais especificamente, clitoromegalia. Esses achados devem levantar suspeita de tumores produtores de androgênios.

Como diferenciar um tumor ovariano de outras causas de hiperandrogenismo?

A chave está nos exames laboratoriais: testosterona total muito elevada (geralmente >150-200 ng/dL ou >2-3x o limite superior da normalidade) com níveis normais de sulfato de DHEA (DHEA-S) sugere fortemente uma origem ovariana. Níveis elevados de DHEA-S indicariam uma origem adrenal, enquanto na SOP, a testosterona é moderadamente elevada.

Qual a conduta inicial diante da suspeita de tumor produtor de androgênios?

A conduta inicial é a confirmação laboratorial do hiperandrogenismo e, em seguida, a localização da fonte. Isso geralmente envolve exames de imagem, como ultrassonografia pélvica e ressonância magnética de abdome e pelve, para identificar massas ovarianas ou adrenais. A biópsia ou remoção cirúrgica é necessária para o diagnóstico definitivo e tratamento.

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