AMP - Associação Médica do Paraná — Prova 2024
Paciente masculino, 30 anos, vítima de agressão física há cerca de 6 horas, chega ao prontosocorro com queixa de dor lombar e hematúria macroscópica. Encontra-se estável hemodinamicamente. O abdome mostra-se plano, flácido, doloroso a palpação profunda, sem sinais de irritação peritoneal e com diversas escoriações em dorso e parede anterior do abdome. Realizou tomografia computadorizada de abdome com contraste que demonstrou pequena quantidade de líquido livre em fundo de saco e avulsão do hilo renal com desvascularização do rim esquerdo com extravasamento de contraste em pequena quantidade. Em relação a conduta para este paciente, assinale a assertiva correta:
Avulsão do hilo renal = Lesão Grau V → Indicação de exploração cirúrgica imediata.
Lesões grau V envolvem rim estilhaçado ou avulsão hilar com desvascularização. Mesmo em pacientes estáveis, a avulsão hilar é uma emergência cirúrgica devido ao risco de perda funcional e sangramento.
O trauma renal ocorre em cerca de 10% de todos os traumas abdominais, sendo a maioria de natureza contusa. A classificação da AAST é a ferramenta diagnóstica mais importante para guiar o tratamento. Atualmente, existe uma tendência mundial para o manejo não operatório (MNO) mesmo em lesões de alto grau (IV e V), desde que o paciente esteja hemodinamicamente estável e não haja lesões associadas que exijam laparotomia. No entanto, a avulsão do hilo renal representa um cenário crítico. A desvascularização do órgão leva à necrose isquêmica rápida, e o extravasamento de sangue ou urina no espaço retroperitoneal pode ser maciço. O diagnóstico por imagem mostra o rim 'mudo' (sem realce de contraste). Nesses casos, a exploração cirúrgica é mandatória para controle de danos e, se possível, tentativa de salvamento do órgão, embora a nefrectomia seja o desfecho mais comum devido ao tempo de isquemia decorrido.
A classificação da American Association for the Surgery of Trauma (AAST) divide as lesões em graus I a V. O Grau I envolve contusão ou hematoma subcapsular não expansivo. O Grau II apresenta laceração cortical menor que 1 cm sem extravasamento urinário. O Grau III possui laceração maior que 1 cm sem atingir o sistema coletor. O Grau IV envolve laceração através da junção corticomedular para o sistema coletor ou lesão de vasos segmentares. O Grau V, o mais grave, é definido por rim estilhaçado (shattered kidney) ou avulsão do hilo renal com desvascularização completa do órgão. Identificar corretamente o grau via TC é fundamental para definir se a conduta será conservadora (comum em graus I-III e alguns IV estáveis) ou cirúrgica (frequente em grau V ou instabilidade hemodinâmica).
A principal indicação absoluta para exploração cirúrgica no trauma renal é a instabilidade hemodinâmica persistente secundária ao sangramento renal, independentemente do grau da lesão. Outras indicações incluem hematoma perirrenal pulsátil ou em expansão identificado durante laparotomia por outras causas. Lesões de grau V, como a avulsão do hilo renal ou desvascularização completa, frequentemente exigem intervenção imediata para tentativa de revascularização (raramente bem-sucedida em trauma contuso) ou, mais comumente, nefrectomia total para controle de danos. O extravasamento de contraste isolado (fístula urinária) em paciente estável pode muitas vezes ser manejado com stents ureterais (Double-J) ou drenagem percutânea, não sendo uma indicação absoluta de cirurgia aberta imediata.
A tomografia computadorizada (TC) de abdome e pelve com contraste endovenoso é o padrão-ouro para avaliação do trauma renal em pacientes estáveis. Ela permite o estadiamento preciso da lesão, identificando a profundidade das lacerações, o envolvimento do sistema coletor (fase excretora), a presença de hematomas e a integridade da vascularização hilar. No caso de avulsão hilar, a TC demonstra a ausência de realce do parênquima renal (rim 'mudo') e pode mostrar extravasamento de contraste na fase arterial. A fase tardia ou excretora é essencial para diagnosticar lesões do sistema coletor e ureter. Em pacientes instáveis, a avaliação costuma ser feita via FAST ou urografia excretora de um único filme na sala de cirurgia para verificar a funcionalidade do rim contralateral.
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