SES-DF - Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal — Prova 2025
Um paciente de 22 anos de idade foi admitido no prontosocorro após ser vítima de ferimento por arma de fogo na região toracoabdominal esquerda. Na admissão, os sinais vitais eram PA = 85 mmHg X 60 mmHg, FC = 125 bpm, FR = 28 irpm, temperatura = 36,2 °C e SatO2 = 92% em ar ambiente. Ao exame físico, observou-se orifício de entrada na região lombar esquerda, hematoma palpável e em expansão na região lombar, abdome rígido, com sinais de peritonite, hematúria macroscópica e rebaixamento progressivo do nível de consciência. Realizou tomografia computadorizada com contraste, que evidenciou laceração extensa no parênquima do rim esquerdo, estendendo-se ao córtex, à medula e ao sistema coletor, com extravasamento de contraste, hematoma perirrenal volumoso e sinais de comprometimento vascular segmentar. O rim contralateral apresentava-se normal.A respeito da lesão renal traumática, assinale a alternativa correta.
Choque + Hematúria (mesmo micro) → Alta suspeição de lesão renal grave.
A gravidade da lesão renal não é proporcional à intensidade da hematúria; o choque sistêmico associado à hematúria é o principal preditor de lesões graves.
O trauma renal ocorre em aproximadamente 10% dos traumas abdominais, sendo o rim o órgão geniturinário mais comumente lesionado. A classificação da American Association for the Surgery of Trauma (AAST) é a ferramenta padrão para graduar essas lesões, variando de I (contusão/hematoma subcapsular) a V (rim estilhaçado ou avulsão hilar). O caso clínico descreve uma lesão Grau IV, caracterizada por laceração que atinge o sistema coletor e vasos segmentares. A abordagem moderna prioriza o manejo conservador (não operatório) sempre que possível, visando a preservação do parênquima renal. No entanto, o ferimento por arma de fogo (trauma penetrante) frequentemente se associa a lesões de outros órgãos abdominais, exigindo laparotomia exploradora. A correlação entre choque e hematúria microscópica é um marcador de gravidade validado, indicando que a perfusão renal comprometida ou lesões vasculares importantes estão presentes, independentemente da quantidade de sangue visível na urina.
A hematúria é um sinal clássico de trauma urológico, mas sua ausência ou intensidade não exclui nem confirma a gravidade da lesão renal. No trauma contuso, a hematúria macroscópica ou a microscópica acompanhada de choque (PAS < 90 mmHg) são indicações formais de investigação por imagem, pois correlacionam-se com lesões de alto grau (graus III a V da AAST). No entanto, em traumas penetrantes, qualquer grau de hematúria, ou mesmo sua ausência, exige investigação, pois lesões de pedículo vascular ou do sistema coletor podem não apresentar sangue na urina inicialmente. Portanto, o médico deve focar na estabilidade hemodinâmica e no mecanismo do trauma mais do que na cor da urina isoladamente para decidir a propedêutica.
A tomografia computadorizada (TC) com contraste endovenoso é o padrão-ouro para o estadiamento do trauma renal em pacientes estáveis. As indicações principais incluem: todos os pacientes com trauma abdominal penetrante com suspeita de lesão renal; pacientes com trauma contuso que apresentam hematúria macroscópica; e pacientes com trauma contuso, hematúria microscópica e instabilidade hemodinâmica (PAS < 90 mmHg). A TC permite classificar a lesão segundo a escala da AAST, avaliar o extravasamento de contraste (sugerindo lesão do sistema coletor) e identificar sangramentos ativos ou hematomas em expansão, sendo fundamental para decidir entre o manejo conservador e a intervenção cirúrgica ou por radiologia intervencionista.
A maioria das lesões renais (mesmo graus IV e V) em pacientes estáveis pode ser manejada de forma não operatória. As indicações absolutas para exploração cirúrgica (nefrectomia ou reparo) incluem instabilidade hemodinâmica persistente secundária à hemorragia renal, hematoma perirrenal em expansão ou pulsátil identificado durante laparotomia por outras lesões, e avulsão completa do pedículo renal (Grau V). Indicações relativas incluem extravasamento urinário persistente não resolvido por endourologia e grandes áreas de parênquima desvitalizado. Em traumas penetrantes, a taxa de exploração é maior, mas a estabilidade hemodinâmica ainda permite o manejo conservador em casos selecionados com estadiamento tomográfico preciso.
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