Trauma Pancreático Contuso: Diagnóstico e Manejo

HM São José - Hospital Municipal de São José (SC) — Prova 2023

Enunciado

Paciente masculino, 20 anos, sofreu acidente de trabalho com trauma abdominal contuso há 4 horas. Relata que um bloco de concreto caiu sobre seu abdome, necessitando de várias pessoas para retirá-lo devido ao grande peso. Permaneceu aproximadamente 35 minutos com a carga sobre o corpo. Foi atendido pela equipe de resgate pré-hospitalar e transferido ao centro de trauma mais próximo em prancha rígida e colar cervical, com acesso periférico calibroso, infundido 500 ml de ringer lactato e imobilização em antebraço direito. É atendido conforme o protocolo de trauma multissistêmico. Sinais vitais: pressão arterial: 150 x 110 mmHg / frequência cardíaca: 110 bpm / frequência respiratória: 17 ipm / temperatura axilar: 36,2ºC / saturação periférica de oxigênio em ar ambiente: 95%. A – Via aérea pérvia, com colar cervical. B – Boa expansibilidade torácica, ausência de equimoses ou hematomas. Murmúrio presente bilateral, sem ruídos. Percussão normal. C – Estável hemodinamicamente. Taquicárdico em ritmo sinusal. Bulhas rítmicas, normofonéticas, sem sopros audíveis. Ausência de estase jugular patológica. Diurese clara. D – Glasgow 15. Pupilas isocóricas, fotorreagentes, sem déficits focais. E – Sem lesões ameaçadoras à vida aparentes. Pelve fechada. Abdome com equimose em mesogástrio, doloroso difusamente, sem sinais de irritação peritoneal. Devido à estabilidade, foi submetido à tomografia de abdome com contraste endovenoso (figura abaixo). A principal hipótese diagnóstica é:

Alternativas

  1. A) Trauma hepático.
  2. B) Trauma renal.
  3. C) Trauma esplênico.
  4. D) Trauma pancreático.

Pérola Clínica

Trauma abdominal contuso por compressão + dor mesogástrica → suspeitar de lesão pancreática.

Resumo-Chave

O trauma pancreático é uma lesão rara, mas grave, em traumas abdominais contusos, especialmente por mecanismos de compressão ou esmagamento. A dor em mesogástrio e a equimose nessa região são pistas importantes. Embora a TC com contraste seja o exame de escolha para avaliação de lesões de órgãos sólidos, o diagnóstico de lesão pancreática pode ser desafiador e requerer alta suspeição clínica.

Contexto Educacional

O trauma abdominal contuso é uma causa frequente de lesões em múltiplos órgãos, e o trauma pancreático, embora menos comum (ocorrendo em cerca de 0,2% a 5% dos traumas abdominais contusos), é associado a alta morbimortalidade. A importância clínica reside na sua potencial gravidade e na dificuldade diagnóstica, que pode levar a atrasos no tratamento e complicações como fístulas pancreáticas, pseudocistos e abscessos. O mecanismo de lesão por compressão direta do pâncreas contra a coluna vertebral é o mais comum. A suspeita de trauma pancreático deve surgir em pacientes com dor abdominal persistente ou desproporcional ao exame físico, especialmente em casos de trauma por compressão na região epigástrica ou mesogástrica. A equimose em mesogástrio (sinal de Cullen ou Grey Turner, embora mais associados a pancreatite hemorrágica ou sangramento retroperitoneal, podem estar presentes) é um achado relevante. Embora o paciente possa estar hemodinamicamente estável inicialmente, a lesão pancreática pode evoluir com inflamação e complicações tardias. A tomografia computadorizada com contraste endovenoso é o principal método de imagem para o diagnóstico, permitindo avaliar a extensão da lesão e a presença de coleções. O tratamento do trauma pancreático varia conforme a gravidade da lesão, desde o manejo não operatório para contusões e pequenas lacerações sem envolvimento ductal, até a cirurgia para lesões mais graves, como transecções ou lesões ductais. A monitorização de amilase e lipase séricas pode ser útil, mas não é diagnóstica. O prognóstico depende da extensão da lesão, do tempo até o diagnóstico e da presença de lesões associadas. A alta suspeição clínica é fundamental para um diagnóstico precoce e um manejo adequado.

Perguntas Frequentes

Quais são os mecanismos de trauma que mais frequentemente causam lesão pancreática?

A lesão pancreática é mais comum em traumas abdominais contusos por mecanismos de compressão direta contra a coluna vertebral, como em acidentes automobilísticos (impacto do volante) ou quedas com impacto abdominal. Lesões por esmagamento, como no caso de um bloco de concreto, também são causas importantes.

Qual é o papel da tomografia computadorizada no diagnóstico de trauma pancreático?

A tomografia computadorizada (TC) com contraste é o exame de imagem de escolha para avaliar lesões de órgãos sólidos no trauma abdominal. No trauma pancreático, a TC pode revelar edema, hematoma, lacerações ou transecção do pâncreas, além de coleções líquidas peripancreáticas. No entanto, lesões ductais podem ser difíceis de visualizar inicialmente.

Quais são os principais desafios no diagnóstico do trauma pancreático?

Os desafios incluem a apresentação clínica insidiosa, com sintomas que podem ser tardios e inespecíficos, e a dificuldade de visualização de lesões ductais na TC inicial. Níveis de amilase e lipase séricas podem estar elevados, mas não são específicos para lesão pancreática e podem não se correlacionar com a gravidade da lesão.

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