Manejo do Trauma Esplênico: Quando Indicar Conduta Conservadora

SMS Curitiba - Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba (PR) — Prova 2026

Enunciado

Homem de 34 anos, previamente hígido, vítima de colisão automobilística frontal há cerca de 1 hora, foi admitido no pronto-socorro consciente, orientado e hemodinamicamente estável, com PA= 122x78 mmHg e FC = 96 bpm. Refere dor abdominal difusa, predominando em quadrante superior esquerdo, associada a náuseas. Ao exame físico, apresenta sensibilidade difusa à palpação, sem sinais evidentes de irritação peritoneal. Há equimose na parede abdominal compatível com marca do cinto de segurança. FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) realizado na admissão mostra pequena quantidade de líquido livre na loja esplênica e fundo de saco de Douglas. Hemoglobina inicial: 12,2 g/dL. Tomografia computadorizada de abdome com contraste evidenciou laceração esplênica medindo cerca de 4 cm de profundidade, envolvendo o hilo esplênico, associada a moderada quantidade de líquido livre periesplênico e em fundo de saco de Douglas, sem sinais de extravasamento ativo de contraste. Com base nas informações acima e nas recomendações atuais, qual é a conduta mais apropriada?

Alternativas

  1. A) Laparotomia exploradora imediata, considerando o risco de sangramento oculto.
  2. B) Observação hospitalar na unidade de terapia intensiva e monitorização seriada.
  3. C) Embolização seletiva de artéria esplênica como medida inicial de estabilização.
  4. D) Laparoscopia diagnóstica com possibilidade de esplenectomia se sangramento identificado.

Pérola Clínica

Estabilidade hemodinâmica + ausência de peritonite = Conduta Não Operatória (CNO) no trauma esplênico.

Resumo-Chave

O manejo não operatório é o padrão-ouro para lesões de órgãos sólidos em pacientes estáveis, independentemente do grau da lesão na TC, desde que não haja sinais de sangramento ativo ou peritonite.

Contexto Educacional

O manejo do trauma abdominal evoluiu significativamente nas últimas décadas, migrando de uma abordagem predominantemente cirúrgica para a preservação de órgãos. O baço, devido à sua função imunológica e hematológica, é o principal foco dessa mudança. Atualmente, a estabilidade hemodinâmica é o fator determinante mais importante para a decisão terapêutica, sobrepondo-se à classificação anatômica da lesão. A conduta não operatória (CNO) exige uma infraestrutura hospitalar adequada, com disponibilidade de UTI, equipe cirúrgica pronta para intervenção imediata e, idealmente, serviço de radiologia intervencionista. A angioembolização tornou-se um adjunto valioso, permitindo o sucesso da CNO mesmo em pacientes com sangramento arterial contido (blush) ou pseudoaneurismas, evitando a esplenectomia e suas complicações a longo prazo, como a sepse pós-esplenectomia.

Perguntas Frequentes

Quais os critérios para o manejo não operatório (CNO) no trauma esplênico?

Os critérios fundamentais para a Conduta Não Operatória (CNO) em traumas de órgãos sólidos, como o baço, incluem: estabilidade hemodinâmica (definida por pressão arterial e frequência cardíaca dentro da normalidade ou que respondem prontamente a volume), ausência de sinais de irritação peritoneal ao exame físico e ausência de outras lesões abdominais que exijam cirurgia imediata (como perfuração de vísceras ocas). A tomografia computadorizada é essencial para graduar a lesão e verificar a presença de 'blush' (extravasamento de contraste), que indicaria sangramento ativo. Se o paciente estiver estável, mesmo lesões de alto grau podem ser manejadas conservadoramente em ambiente de terapia intensiva com monitorização rigorosa.

Qual o papel da tomografia e do FAST no trauma abdominal estável?

O FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) é uma ferramenta de triagem rápida à beira leito, útil para identificar líquido livre, mas possui baixa sensibilidade para lesões parenquimatosas específicas e não avalia o retroperitônio. Em pacientes estáveis com FAST positivo, a Tomografia Computadorizada (TC) de abdome com contraste é o exame de escolha ('padrão-ouro'). A TC permite graduar a lesão esplênica (escala AAST), quantificar o hemoperitônio e, crucialmente, identificar extravasamento ativo de contraste (blush arterial). A ausência de blush em um paciente estável reforça a segurança da conduta não operatória, enquanto sua presença pode indicar a necessidade de angioembolização.

Quando a conduta não operatória deve ser interrompida?

A falha da conduta não operatória ocorre em cerca de 5% a 15% dos casos e é sinalizada principalmente pela instabilidade hemodinâmica persistente ou progressiva (necessidade de transfusão maciça, queda de hemoglobina sem estabilização) ou pelo surgimento de sinais de peritonite. Outros fatores de alerta incluem a piora da dor abdominal ou evidência tomográfica de complicações como pseudoaneurismas ou abscessos. Nesses casos, a intervenção (seja por embolização ou cirurgia) deve ser imediata. A vigilância em unidade de terapia intensiva com exames físicos seriados e controle de hematócrito é mandatória nas primeiras 24 a 48 horas para detectar precocemente esses sinais de falha.

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