FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2024
Com relação ao trauma cervical, assinale a alternativa correta:
Hemorragia em Zona III de difícil acesso → Tamponamento com balão de Foley + Bloco Cirúrgico.
A Zona III cervical (acima do ângulo da mandíbula) apresenta desafios anatômicos para controle vascular direto, justificando manobras temporizadoras como o balão de Foley antes da angiografia ou cirurgia.
O trauma cervical é uma das áreas mais críticas da cirurgia do trauma devido à alta densidade de estruturas vitais (vasculares, aerodigestivas e neurológicas) em um espaço reduzido. Historicamente, a conduta era ditada estritamente pelas zonas de Monson, com a Zona II sendo a mais frequentemente explorada cirurgicamente por sua acessibilidade. Atualmente, a tendência é o 'No-Zone Management', onde a decisão cirúrgica baseia-se mais nos achados clínicos (sinais 'hard' de lesão vascular ou aerodigestiva) e em exames de imagem de alta resolução, como a angiotomografia multislice, do que apenas na localização anatômica do ferimento. As lesões vasculares são a principal causa de mortalidade imediata. Nas zonas de transição (I e III), o controle proximal e distal dos vasos é tecnicamente difícil. Por isso, o uso de manobras como o tamponamento com balão de sonda de Foley tornou-se um padrão ouro temporizador. Além disso, a diferenciação entre trauma contuso e penetrante é vital: no trauma contuso, as lesões de artérias carótidas e vertebrais são frequentemente ocultas e requerem alto índice de suspeição (Critérios de Denver) para evitar acidentes vasculares cerebrais isquêmicos tardios.
As zonas cervicais são fundamentais para orientar a conduta no trauma penetrante. A Zona I estende-se da fúrcula esternal e clavículas até a cartilagem cricoide, contendo grandes vasos da base, pulmões e esôfago proximal. A Zona II localiza-se entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula, sendo a área mais exposta e de mais fácil acesso cirúrgico. A Zona III compreende o espaço entre o ângulo da mandíbula e a base do crânio. Esta divisão clássica ajuda a prever quais estruturas podem estar lesionadas e qual a melhor via de acesso, embora a propedêutica moderna baseada em angiotomografia tenha flexibilizado a necessidade de exploração cirúrgica mandatória em pacientes estáveis.
O uso da sonda de Foley é uma técnica de 'damage control' extremamente útil em ferimentos penetrantes cervicais com sangramento ativo, especialmente nas Zonas I e III, onde a compressão manual externa é ineficaz e o acesso cirúrgico é complexo. A técnica consiste em introduzir a sonda no trajeto do ferimento e insuflar o balão com solução salina até que a hemorragia seja estancada por tamponamento direto. Isso permite estabilizar o paciente hemodinamicamente, ganhar tempo para o transporte ao centro cirúrgico ou para a realização de exames de imagem, como a arteriografia, que pode definir a necessidade de embolização ou reparo vascular complexo.
O manejo da via aérea no trauma cervical é prioritário e desafiador. Se houver sinais de obstrução iminente, hematoma em expansão ou saída de ar pelo ferimento (sugerindo lesão laringotraqueal), a via aérea deve ser garantida imediatamente. A intubação orotraqueal (IOT) por laringoscopia direta ou videolaringoscopia é geralmente a primeira escolha, desde que não haja distorção anatômica severa que impeça a visualização das cordas vocais. A cricotiroidostomia cirúrgica é indicada quando a IOT falha ou é impossível. É importante notar que a presença de um ferimento traqueal não contraindica a IOT; pelo contrário, o tubo pode ser passado através da lesão sob visão direta para assegurar a ventilação.
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