Trauma Cervical: Manejo de Lesões em Zona III e Condutas

FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2024

Enunciado

Com relação ao trauma cervical, assinale a alternativa correta:

Alternativas

  1. A) As lesões de artérias vertebrais ocorrem mais frequentemente no trauma penetrante que no trauma contuso.
  2. B) As hemorragias decorrentes da zona III são de difícil acesso pela localização, sendo indicado, após as tentativas de conter o sangramento com compressão, uso da sonda de Foley com insuflação do balão, e o encaminhamento do paciente para o centro cirúrgico.
  3. C) As estruturas mais lesadas no trauma penetrante são as vias aéreas, seguidas das medulares, faríngeas, esofágicas, vasculares e plexo braquial, sendo as artérias mais afetadas que as veias.
  4. D) A saída de ar por um ferimento penetrante levanta a suspeita de lesão de traqueia e de laringe, sendo contraindicada a intubação orotraqueal; a via aérea cirúrgica deve ser realizada.
  5. E) A zona II é uma área de localização difícil por estar na transição cervico-torácica; sua abordagem se dá pela associação de cervicotomia + esternotomia para se obter melhor acesso às estruturas anatômicas.

Pérola Clínica

Hemorragia em Zona III de difícil acesso → Tamponamento com balão de Foley + Bloco Cirúrgico.

Resumo-Chave

A Zona III cervical (acima do ângulo da mandíbula) apresenta desafios anatômicos para controle vascular direto, justificando manobras temporizadoras como o balão de Foley antes da angiografia ou cirurgia.

Contexto Educacional

O trauma cervical é uma das áreas mais críticas da cirurgia do trauma devido à alta densidade de estruturas vitais (vasculares, aerodigestivas e neurológicas) em um espaço reduzido. Historicamente, a conduta era ditada estritamente pelas zonas de Monson, com a Zona II sendo a mais frequentemente explorada cirurgicamente por sua acessibilidade. Atualmente, a tendência é o 'No-Zone Management', onde a decisão cirúrgica baseia-se mais nos achados clínicos (sinais 'hard' de lesão vascular ou aerodigestiva) e em exames de imagem de alta resolução, como a angiotomografia multislice, do que apenas na localização anatômica do ferimento. As lesões vasculares são a principal causa de mortalidade imediata. Nas zonas de transição (I e III), o controle proximal e distal dos vasos é tecnicamente difícil. Por isso, o uso de manobras como o tamponamento com balão de sonda de Foley tornou-se um padrão ouro temporizador. Além disso, a diferenciação entre trauma contuso e penetrante é vital: no trauma contuso, as lesões de artérias carótidas e vertebrais são frequentemente ocultas e requerem alto índice de suspeição (Critérios de Denver) para evitar acidentes vasculares cerebrais isquêmicos tardios.

Perguntas Frequentes

Quais são os limites anatômicos das três zonas cervicais de Monson?

As zonas cervicais são fundamentais para orientar a conduta no trauma penetrante. A Zona I estende-se da fúrcula esternal e clavículas até a cartilagem cricoide, contendo grandes vasos da base, pulmões e esôfago proximal. A Zona II localiza-se entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula, sendo a área mais exposta e de mais fácil acesso cirúrgico. A Zona III compreende o espaço entre o ângulo da mandíbula e a base do crânio. Esta divisão clássica ajuda a prever quais estruturas podem estar lesionadas e qual a melhor via de acesso, embora a propedêutica moderna baseada em angiotomografia tenha flexibilizado a necessidade de exploração cirúrgica mandatória em pacientes estáveis.

Por que a sonda de Foley é utilizada no controle de hemorragias cervicais?

O uso da sonda de Foley é uma técnica de 'damage control' extremamente útil em ferimentos penetrantes cervicais com sangramento ativo, especialmente nas Zonas I e III, onde a compressão manual externa é ineficaz e o acesso cirúrgico é complexo. A técnica consiste em introduzir a sonda no trajeto do ferimento e insuflar o balão com solução salina até que a hemorragia seja estancada por tamponamento direto. Isso permite estabilizar o paciente hemodinamicamente, ganhar tempo para o transporte ao centro cirúrgico ou para a realização de exames de imagem, como a arteriografia, que pode definir a necessidade de embolização ou reparo vascular complexo.

Como deve ser o manejo da via aérea no trauma cervical penetrante?

O manejo da via aérea no trauma cervical é prioritário e desafiador. Se houver sinais de obstrução iminente, hematoma em expansão ou saída de ar pelo ferimento (sugerindo lesão laringotraqueal), a via aérea deve ser garantida imediatamente. A intubação orotraqueal (IOT) por laringoscopia direta ou videolaringoscopia é geralmente a primeira escolha, desde que não haja distorção anatômica severa que impeça a visualização das cordas vocais. A cricotiroidostomia cirúrgica é indicada quando a IOT falha ou é impossível. É importante notar que a presença de um ferimento traqueal não contraindica a IOT; pelo contrário, o tubo pode ser passado através da lesão sob visão direta para assegurar a ventilação.

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