HFA - Hospital das Forças Armadas (DF) — Prova 2020
Um paciente de 27 anos de idade foi vítima de ferimento por arma branca no sexto espaço intercostal, na altura da linha axilar anterior esquerda. Chegou ao pronto-socorro dispneico, sudoreico, com Glasgow de 14, pulso de 130 bpm, pressão arterial de 80/60 mmHg, frequência respiratória de 35 ipm e murmúrio vesicular diminuído no hemitórax esquerdo. Com base nesse caso hipotético e nos conceitos médicos a ele associados, julgue o item a seguir. Devido às condições descritas, é possível descartar uma lesão cardíaca no doente.
Ferimento em 'área precordial' + Choque → Impossível descartar lesão cardíaca sem propedêutica.
Lesões penetrantes na zona de transição toracoabdominal ou precordial exigem alta suspeição para lesão cardíaca, mesmo em pacientes inicialmente estáveis.
O trauma cardíaco penetrante é uma das emergências mais letais da cirurgia do trauma. A apresentação clínica varia desde a morte imediata por exanguinação até o tamponamento cardíaco, que, embora grave, oferece uma janela de oportunidade terapêutica por limitar temporariamente a perda sanguínea. O caso descrito apresenta um paciente com sinais claros de choque (taquicardia e hipotensão) e ferimento em topografia de risco, o que exige investigação imediata. Fisiopatologicamente, o tamponamento cardíaco causa um choque obstrutivo ao impedir o enchimento diastólico das câmaras direitas. No trauma penetrante, pequenas lacerações pericárdicas podem ser ocluídas por coágulos, permitindo que o sangue se acumule sob pressão. O manejo inicial deve seguir o protocolo ABCDE do ATLS, com foco na reposição volêmica cautelosa e diagnóstico rápido via FAST. A estabilidade relativa (Glasgow 14) não exclui a gravidade, pois a descompensação no tamponamento costuma ser súbita e catastrófica.
A Zona de Ziedler, ou área precordial de risco, é delimitada superiormente pelas clavículas, inferiormente pelo rebordo costal e lateralmente pelas linhas axilares anteriores. Qualquer ferimento penetrante nesta região deve ser considerado uma lesão cardíaca potencial até que se prove o contrário. A proximidade das estruturas cardíacas e grandes vasos torna essa área crítica para o desenvolvimento de tamponamento cardíaco ou hemotórax maciço.
O diagnóstico clínico baseia-se na Tríade de Beck (hipotensão, abafamento de bulhas e turgência jugular), embora ela esteja presente em menos de 30% dos casos. No cenário de trauma (ATLS), o FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) é a ferramenta de escolha, especificamente a janela pericárdica, que possui alta sensibilidade para identificar líquido no saco pericárdico. Em pacientes instáveis com suspeita confirmada, a toracotomia de reanimação ou pericardiocentese de alívio podem ser necessárias.
Sim. Devido à excursão diafragmática e à anatomia cardíaca, ferimentos no 6º espaço intercostal, especialmente na linha axilar anterior esquerda, estão em uma zona de transição toracoabdominal. O trajeto de uma arma branca é imprevisível e pode facilmente atingir o ventrículo esquerdo ou o ápice cardíaco. Além disso, a presença de choque (pulso 130 bpm, PA 80/60 mmHg) em um paciente com trauma penetrante nessa região torna a lesão cardíaca uma hipótese diagnóstica obrigatória.
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