HC ICC - Hospital do Câncer - Instituto do Câncer do Ceará — Prova 2025
Homem de 50 anos sofreu acidente automobilístico moto x moto. Ao ser avaliado, encontravase consciente, orientado e imobilizado em uma prancha rígida, utilizando colar cervical. Os sinais vitais mostraram frequência cardíaca de 110 bpm e pressão arterial de 90 x 60 mmHg. A ausculta pulmonar não revelou ruídos anormais, mas o abdômen estava distendido e apresentava dor à palpação nos flancos e no hipocôndrio esquerdo, além de um hematoma visível, sem sinais de peritonite. Hemoglobina: 9,8 g/dL. Após a infusão intravenosa de 1000 mL de cristaloides, a frequência cardíaca reduziu para 95 bpm e a pressão arterial aumentou para 110 x 60 mmHg. A tomografia computadorizada do abdômen revelou uma laceração esplênica de 3 cm de profundidade, acompanhada de líquido periesplênico. A conduta mais apropriada neste caso é:
Estabilidade hemodinâmica + ausência de peritonite → Tratamento não operatório (TNO) na lesão esplênica.
Pacientes que respondem à infusão inicial de cristaloides e mantêm estabilidade hemodinâmica, sem sinais de irritação peritoneal, são candidatos ao tratamento conservador (TNO), independentemente do grau da lesão tomográfica.
O manejo do trauma esplênico evoluiu significativamente nas últimas décadas, priorizando a preservação do órgão para evitar o risco de sepse pós-esplenectomia. Atualmente, a estabilidade hemodinâmica é o principal determinante da conduta, sobrepondo-se aos achados anatômicos da tomografia. O caso descreve um respondedor rápido (estabilizou após 1000mL de cristaloide), o que autoriza a observação clínica. Fisiopatologicamente, o baço é um órgão altamente vascularizado, e pequenas lacerações podem parar de sangrar espontaneamente devido ao efeito de tamponamento do hematoma subcapsular ou periesplênico. O sucesso do TNO em centros de trauma nível I ultrapassa 90% em lesões de baixo grau e é considerável mesmo em lesões graus IV e V, desde que o suporte hospitalar permita intervenção imediata se necessário.
Os critérios fundamentais para o TNO incluem estabilidade hemodinâmica (ou estabilização após manobras iniciais de ressuscitação), ausência de sinais de irritação peritoneal (peritonite) e ausência de outras lesões intra-abdominais que exijam cirurgia imediata. A tomografia computadorizada é essencial para graduar a lesão e avaliar a presença de 'blush' arterial, que pode indicar a necessidade de angioembolização como adjunto ao TNO. O grau da lesão pela escala AAST, isoladamente, não é mais uma contraindicação absoluta ao manejo conservador em centros com monitorização intensiva.
A TC de abdome com contraste é o padrão-ouro para avaliar pacientes hemodinamicamente estáveis. Ela permite a classificação da lesão segundo a AAST, quantifica o hemoperitônio e identifica o extravasamento ativo de contraste (blush arterial). O achado de blush sugere sangramento ativo e pode ser tratado com angioembolização, aumentando as taxas de sucesso do tratamento não operatório. Além disso, a TC ajuda a excluir lesões de vísceras ocas que demandariam laparotomia exploradora imediata.
O TNO deve ser interrompido e o paciente levado à laparotomia se houver instabilidade hemodinâmica persistente apesar da ressuscitação, queda progressiva dos níveis de hemoglobina com necessidade de múltiplas transfusões, ou surgimento de sinais de peritonite. A falha do TNO ocorre geralmente nas primeiras 24 a 72 horas. A monitorização contínua em ambiente de UTI ou unidade de semi-intensiva é obrigatória para garantir a segurança do paciente durante o manejo conservador do trauma esplênico.
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