UFSC/HU - Hospital Universitário Prof. Polydoro Ernani de São Thiago (SC) — Prova 2022
Considere uma paciente feminina, 48 anos, internada devido à tentativa de suicídio por meio da ingesta de 20 comprimidos de clonazepam 0,5 mg. Foi inicialmente internada em unidade de terapia intensiva devido ao risco de rebaixamento do nível de consciência, mas evoluiu clinicamente bem e após 48 horas foi liberada para seguir internação em enfermaria. Em sua primeira avaliação, ainda sem a presença de um familiar, a paciente relata ser a sua terceira tentativa de suicídio. Todas as três tentativas ocorreram no contexto de discussão com o seu cônjuge e foram por meio de ingestão de medicamentos. Relata estar “deprimida” e ainda persistir com ideação suicida, que tem plano de usar método diferente em nova tentativa, porém, não relata qual seria tal método. Já em avaliação subsequente com psicólogo, a paciente, acompanhada de sua filha e muito bem humorada, relata estar arrependida de ter tentado pôr fim à própria vida e que não tem intensão de nova tentativa, relatando que essa é uma questão resolvida para ela. Por fim, em avaliação com o psiquiatra, a paciente, acompanhada de seu cônjuge, relatou em tom agressivo que não tem intensão de nova tentativa de suicídio, mas que não está arrependida da tentativa atual, pois segundo ela, o seu cônjuge “mereceu tomar esse susto”.Assinale a alternativa correta com relação ao caso.
Instabilidade de humor, impulsividade e relacionamentos caóticos → Suspeitar de Transtorno de Personalidade Borderline.
A instabilidade emocional acentuada, a impulsividade, as tentativas de suicídio recorrentes e os padrões de relacionamento interpessoal caóticos e intensos são características centrais do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). A flutuação nos relatos e no humor, dependendo do interlocutor, é um forte indicativo.
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é um transtorno mental complexo caracterizado por um padrão generalizado de instabilidade nas relações interpessoais, autoimagem, afetos e impulsividade acentuada. Afeta cerca de 1,6% da população geral, sendo mais frequentemente diagnosticado em mulheres, e está associado a um alto risco de tentativas de suicídio e suicídio consumado. A compreensão de seus critérios diagnósticos é fundamental para a prática clínica. A fisiopatologia do TPB envolve uma combinação de fatores genéticos, neurobiológicos (disfunção em circuitos cerebrais relacionados à regulação emocional) e ambientais (traumas na infância, negligência). O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios do DSM-5, que incluem nove itens, dos quais cinco ou mais devem estar presentes. A instabilidade emocional, a impulsividade, os relacionamentos interpessoais caóticos e a autoimagem distorcida são pilares do diagnóstico. O tratamento do TPB é desafiador e multifacetado, com a psicoterapia, especialmente a Terapia Comportamental Dialética (DBT), sendo a abordagem de primeira linha. Medicamentos podem ser usados para tratar sintomas específicos, como instabilidade de humor, impulsividade ou sintomas psicóticos transitórios, mas não curam o transtorno de personalidade em si. O prognóstico pode ser favorável com tratamento adequado e suporte contínuo, embora o risco de suicídio permaneça uma preocupação significativa.
Os critérios incluem esforços desesperados para evitar abandono, relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, perturbação da identidade, impulsividade em áreas potencialmente autodestrutivas, comportamento suicida recorrente, instabilidade afetiva, sentimentos crônicos de vazio, raiva intensa e transitória, e ideação paranoide ou sintomas dissociativos graves.
No TPB, as flutuações de humor são mais rápidas, reativas a estressores interpessoais e acompanhadas de impulsividade e padrões de relacionamento disfuncionais. No Transtorno Bipolar, os episódios de humor (mania/hipomania e depressão) são mais duradouros e geralmente menos reativos a eventos externos imediatos.
Pacientes com TPB têm alto risco de tentativas e suicídio consumado. A avaliação da ideação suicida deve ser contínua e detalhada, considerando a impulsividade e a labilidade emocional, e um plano de segurança deve ser estabelecido.
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