CERMAM - Comissão Estadual de Residência Médica do Amazonas — Prova 2026
Você é médico de família em uma unidade básica de saúde do interior do Amazonas e atende uma criança de 3 anos trazida pela mãe com queixa de atraso na fala. A criança ainda não fala, compreende comandos verbais simples e, por vezes, aponta ou conduz o responsável pela mão para expressar suas vontades. Os marcos motores foram adquiridos dentro da normalidade. Na creche, tende ao isolamento, irrita-se com mudanças na rotina, apresenta hipersensibilidade a sons, episódios de agitação e irritabilidade, além de movimentos repetitivos das mãos. Diante do quadro descrito, qual é a principal hipótese diagnóstica?
Atraso na fala + isolamento + estereotipias + hipersensibilidade → TEA.
O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits na comunicação social e padrões restritos/repetitivos de comportamento, frequentemente associado a alterações sensoriais.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta uma prevalência crescente, exigindo que médicos de família e pediatras estejam aptos a identificar sinais precoces. A tríade clássica de comprometimento na interação social, comunicação e comportamento (com interesses restritos) é fundamental para o raciocínio clínico. A hipersensibilidade a sons e a resistência a mudanças de rotina são marcadores sensoriais e comportamentais típicos que reforçam a hipótese diagnóstica. O diagnóstico é essencialmente clínico e observacional. O tratamento visa maximizar a funcionalidade e a independência da criança, focando no desenvolvimento de habilidades sociais e de comunicação. O papel do médico é coordenar o cuidado, apoiar a família e garantir que a criança receba as intervenções necessárias o mais cedo possível, independentemente de um diagnóstico definitivo fechado, priorizando a estimulação precoce.
O diagnóstico de TEA baseia-se em dois domínios principais: 1) Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos (como dificuldade na reciprocidade socioemocional, em comportamentos comunicativos não verbais e em desenvolver/manter relacionamentos); 2) Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (incluindo movimentos motores estereotipados, insistência em rotinas, interesses fixos e hiper ou hiporeatividade a estímulos sensoriais). Os sintomas devem estar presentes precocemente no desenvolvimento, embora possam não se manifestar plenamente até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas da criança.
Embora o atraso na fala seja uma queixa muito comum que leva os pais a buscarem ajuda, ele não é um critério obrigatório per se para o diagnóstico de TEA. O que define o transtorno é a falha na comunicação social funcional e na reciprocidade. Algumas crianças com TEA podem ter um vocabulário amplo ou falar precocemente (hiperlexia), mas não conseguem usar a linguagem para interagir socialmente, manter um diálogo ou entender nuances como ironia e metáforas. O foco diagnóstico deve estar na qualidade da interação, no contato visual, no uso de gestos e na intenção comunicativa, e não apenas na produção de sons ou palavras.
A conduta envolve a aplicação de instrumentos de triagem validados, como o M-CHAT-R/F em crianças de 16 a 30 meses, além da vigilância do desenvolvimento em todas as consultas. Confirmada a suspeita clínica por meio da observação de sinais como falta de contato visual, não atender pelo nome e estereotipias, a criança deve ser encaminhada para avaliação multiprofissional e intervenção precoce imediata. Não se deve adotar a conduta de 'esperar para ver', pois a plasticidade cerebral nos primeiros anos de vida permite ganhos significativos com terapias baseadas em evidências, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), fonoaudiologia e terapia ocupacional.
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