UNICAMP/HC - Hospital de Clínicas da Unicamp - Campinas (SP) — Prova 2025
Homem, 84a, é admitido de forma eletiva pela ortopedia para realização de cirurgia para colocação de prótese total de quadril, sendo solicitada interconsulta da clínica médica para avaliação pré-operatória. O paciente trouxe uma eletroforese de hemoglobina, realizada há 10 anos, com o seguinte resultado: Hemoglobina A1 = 57% (VR > 95%); A2 = 3% (VR: 2-3,5%); S = 39% (VR: ausente); F = 1% (VR: 0-2%). O paciente apresenta hemograma normal, com hemoglobina = 13,2 g/dL; hematócrito = 39%; VCM = 87 fL; HCM = 31 pg e RDW = 12,8%. Diante desse achado, assinale a alternativa correta:
HbS < 50% + HbA1 presente + Hemograma normal = Traço Falciforme (sem risco cirúrgico adicional).
O traço falciforme (HbAS) é uma condição benigna onde o paciente é portador heterozigoto; não há anemia nem crises vaso-oclusivas, permitindo cirurgias sem preparo transfusional especial.
A interpretação correta da eletroforese de hemoglobina é fundamental na prática clínica para evitar iatrogenias e custos desnecessários. O traço falciforme (HbAS) atinge cerca de 4% da população brasileira e não é considerado uma doença, mas uma variante genética. Esses indivíduos possuem expectativa de vida normal e não apresentam as complicações clássicas da anemia falciforme, como crises álgicas, sequestro esplênico ou disfunção orgânica crônica. No contexto pré-operatório, a avaliação deve focar na distinção clara entre o estado de portador e a doença manifesta. Enquanto pacientes com HbSS exigem protocolos rigorosos de hidratação, controle de temperatura e, muitas vezes, suporte transfusional para atingir metas de HbS, os pacientes com HbAS devem ser manejados como a população geral. A artroplastia total de quadril em idosos requer atenção especial à reserva cardiovascular e profilaxia de tromboembolismo, mas a presença isolada do traço falciforme não altera o planejamento cirúrgico padrão.
Na eletroforese de hemoglobina em pH alcalino, o traço falciforme (HbAS) é caracterizado pela presença predominante de Hemoglobina A1 (geralmente > 50%) e uma quantidade menor de Hemoglobina S (tipicamente entre 35% e 45%). O hemograma desses pacientes é normal. Já na anemia falciforme (HbSS), a Hemoglobina A1 está ausente, e a Hemoglobina S predomina (geralmente > 80-90%), acompanhada de níveis variáveis de Hemoglobina Fetal. Clinicamente, o portador de traço falciforme é assintomático, enquanto o paciente com anemia falciforme apresenta anemia hemolítica crônica e episódios de dor vaso-oclusiva.
Para a grande maioria dos procedimentos cirúrgicos, o traço falciforme não confere um risco aumentado de complicações vaso-oclusivas ou hemolíticas. O paciente mantém uma fisiologia hematológica normal sob condições habituais. No entanto, em situações de hipóxia extrema, acidose grave ou desidratação severa (como em cirurgias com clampeamento prolongado de aorta ou exercícios físicos extenuantes em altitudes elevadas), pode ocorrer a falcização. Em cirurgias eletivas de grande porte, como a artroplastia de quadril, a conduta padrão é manter a homeostase, hidratação e oxigenação adequadas, sem necessidade de intervenções hematológicas específicas.
A eritrocitaférese (transfusão de troca automatizada) é indicada no pré-operatório de pacientes com Doença Falciforme (HbSS, HbSC ou HbS-beta talassemia) que serão submetidos a cirurgias de alto risco (cardíacas, neurocirurgias ou grandes cirurgias abdominais/ortopédicas) ou que possuem histórico de complicações graves, como Síndrome Torácica Aguda ou AVC. O objetivo é reduzir a concentração de HbS para menos de 30% e elevar a hemoglobina total para cerca de 10 g/dL, prevenindo crises vaso-oclusivas no peroperatório. Não se aplica ao traço falciforme (HbAS).
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