Toxocaríase Visceral: Diagnóstico e Conduta em Pediatria

INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2011

Enunciado

Um menino com cinco anos e oito meses foi levado pela mãe à Unidade Básica de Saúde. Há três semanas vem apresentando dor abdominal inespecífica, tosse, febre e hábito de comer terra. Ao exame físico, o médico encontrou palidez cutânea moderada e hepatomegalia. Foram solicitados alguns exames: 1 - hemograma: hemoglobina 10 g/dL, hematócrito 30 %. leucocitose (16.000 /mm³), eosinofilia (12 %), plaquetas normais; 2 - exame parasitológico das fezes (em andamento) e 3 - exame ultrassonográfico do abdome que revelou imagens hipoecogênicas micronodulares no fígado. Com base na história clínica e nos exames complementares, o diagnóstico principal e o tratamento são:

Alternativas

  1. A) Ancilostomíase; utilizar mebendazol, 100 mg, duas vezes ao dia, durante três dias.
  2. B) Giardíase; utilizar secnidazol, 30 mg/Kg, dose única
  3. C) Toxocaríase; utilizar albendazol, 10 mg/Kg, uma vez ao dia, durante cinco dias.
  4. D) Estrongiloidíase; utilizar secnidazol, 25 mg/Kg, uma vez ao dia, de cinco a sete dias.
  5. E) Amebíase; utilizar secnidazol, 30 mg/Kg, dose única.

Pérola Clínica

Pica + Eosinofilia ↑ + Hepatomegalia + Lesões hepáticas → Toxocaríase (Albendazol).

Resumo-Chave

A Toxocaríase (Larva Migrans Visceral) deve ser suspeitada em crianças com geofagia, eosinofilia acentuada e visceromegalia, sendo o Albendazol o tratamento de escolha.

Contexto Educacional

A Toxocaríase é uma zoonose cosmopolita causada por nematódeos do gênero Toxocara. Em humanos, a ingestão de ovos embrionados libera larvas que atravessam a mucosa intestinal e atingem a circulação portal. O quadro clínico varia desde assintomático até a forma visceral grave (Larva Migrans Visceral), caracterizada por febre, hepatomegalia, sintomas respiratórios (tosse, sibilância) e, ocasionalmente, miocardite ou encefalite. O diagnóstico laboratorial baseia-se na presença de eosinofilia persistente e acentuada, hipergamaglobulinemia e sorologia positiva (ELISA). O exame parasitológico de fezes não é útil para o diagnóstico de Toxocaríase, pois não há produção de ovos no intestino humano. O tratamento visa eliminar as larvas e controlar a inflamação, sendo o Albendazol a droga de primeira linha na prática clínica atual.

Perguntas Frequentes

Como diferenciar Larva Migrans Visceral de outras causas de eosinofilia?

A Toxocaríase visceral (LMV) apresenta-se tipicamente com eosinofilia persistente e muito elevada, frequentemente acima de 30-50% no diferencial, associada a hepatomegalia e sintomas respiratórios. Diferencia-se da síndrome de Löffler (causada por Ascaris, Ancylostoma ou Strongyloides) pela cronicidade e gravidade dos sintomas sistêmicos. Enquanto o ciclo de Loeffler é autolimitado e dura cerca de 1-2 semanas, a LMV pode persistir por meses. O diagnóstico é reforçado por sorologia ELISA para Toxocara canis, já que o exame parasitológico de fezes costuma ser negativo, pois o parasita não completa seu ciclo no intestino humano. Imagens de ultrassonografia ou TC podem mostrar granulomas eosinofílicos (lesões hipoecogênicas) no fígado, o que é um achado clássico que auxilia na diferenciação de outras parasitoses intestinais comuns.

Qual o papel da geofagia na transmissão da Toxocaríase?

A geofagia (hábito de comer terra) é o principal fator de risco para a Toxocaríase em crianças, pois o solo pode estar contaminado com ovos embrionados de Toxocara canis ou Toxocara cati, provenientes de fezes de cães e gatos. Ao contrário de outras helmintíases, o ser humano é um hospedeiro acidental onde as larvas não atingem a maturação sexual, migrando erraticamente pelos tecidos (fígado, pulmões, olhos e SNC), desencadeando uma intensa resposta inflamatória eosinofílica. A prevenção baseia-se no tratamento de animais domésticos e controle do acesso de crianças a tanques de areia ou áreas de solo possivelmente contaminadas.

Por que o tratamento de escolha é o Albendazol?

O Albendazol é preferido para o tratamento da Larva Migrans Visceral devido à sua excelente penetração tecidual e eficácia contra as larvas de Toxocara. A dose recomendada é de 10 mg/kg/dia (máximo 400 mg) por 5 dias. Embora o Mebendazol também possa ser utilizado, sua absorção intestinal é inferior, tornando-o menos eficaz para formas sistêmicas da doença. Em casos graves com envolvimento ocular ou do sistema nervoso central, pode ser necessária a associação de corticosteroides para controlar a resposta inflamatória exacerbada causada pela morte das larvas, evitando danos teciduais permanentes.

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