Toxocaríase Visceral: Diagnóstico e Manejo na Pediatria

INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2014

Enunciado

Uma criança com seis anos de idade, natural e procedente da região Norte do Brasil, é internada em hospital com história de febre há seis meses, de caráter intermitente. Não apresenta diarreia. Perda de 3 Kg de peso desde o início do quadro. Ao exame físico apresenta-se eupneica, hidratada; murmúrio vesicular presente bilateralmente, com sibilos esparsos; bulhas cardíacas rítmicas e normofonéticas; fígado a 4 cm do rebordo costal direito e a 4 cm do apêndice xifoide; baço a 3 cm do rebordo costal esquerdo; sem edemas. Exames laboratoriais: hemoglobina = 10 g/dL (Valor de referência: 11,5 - 13,5 g/dL); hematócrito = 36% (Valor de referência: 34% - 40%); leucócitos = 15.000/mm3 (Valor de referência: 5.500 - 14.500/mm3 ); neutrófilos = 38%, eosinófilos = 42%, monócitos = 1%, linfócitos = 19%, plaquetas = 160.000/mm3 (Valor de referência: 150.000 - 350.000/mm3 ); proteínas totais = 6,2 g/dL (Valor de referência: 6,0 - 8g/dL), albumina = 2,5 g/dL (Valor de referência: 2,9 - 4,7 g/dL), globulina = 3,7 g/dL (Valor de referência: 1,4 - 3,2 g/dL). A hipótese diagnóstica e a investigação complementar necessária para confirmação diagnóstica são:

Alternativas

  1. A) Febre tifoide; solicitar Reação de Widal.
  2. B) Leishmaniose visceral; solicitar mielograma.
  3. C) Toxocaríase; solicitar IgE sérica e sorologia específica.
  4. D) Esquistossomose mansônica; solicitar parasitológico de fezes.

Pérola Clínica

Febre prolongada + Hepatoesplenomegalia + Eosinofilia acentuada (>30%) → Pensar em Toxocaríase.

Resumo-Chave

A Toxocaríase (Larva Migrans Visceral) apresenta-se com febre, visceromegalia e eosinofilia intensa. O diagnóstico é confirmado por sorologia específica (ELISA) e níveis elevados de IgE.

Contexto Educacional

A Toxocaríase é uma zoonose de ampla distribuição, sendo uma causa importante de febre de origem indeterminada e eosinofilia em crianças. O quadro clínico varia desde formas assintomáticas até a síndrome de Larva Migrans Visceral (LMV) grave, com comprometimento multiorgânico. O diagnóstico diferencial deve incluir outras parasitoses que cursam com ciclo pulmonar (Síndrome de Loeffler), como Ascaris lumbricoides e Strongyloides stercoralis, porém a magnitude da eosinofilia e a persistência da visceromegalia na Toxocaríase são marcantes. O tratamento geralmente envolve o uso de albendazol ou mebendazol, associado a corticoides em casos de inflamação grave (ocular ou neurológica).

Perguntas Frequentes

Quais os principais achados laboratoriais da Toxocaríase visceral?

Os achados clássicos incluem leucocitose acentuada com eosinofilia persistente e muito elevada (frequentemente acima de 30-40% ou >10.000 eosinófilos/mm³). Além disso, observa-se hipergamaglobulinemia (aumento de globulinas), aumento de IgE total e, em casos de acometimento hepático, hipoalbuminemia. A sorologia por método ELISA para detecção de anticorpos anti-Toxocara é o teste de escolha para confirmação diagnóstica.

Como diferenciar Toxocaríase de Leishmaniose Visceral?

Embora ambas causem febre prolongada e hepatoesplenomegalia, o hemograma é o divisor de águas. Na Toxocaríase, há leucocitose com eosinofilia maciça. Na Leishmaniose Visceral (Calazar), o padrão é de pancitopenia (anemia, leucopenia e plaquetopenia) com eosinopenia. A epidemiologia também ajuda, mas a eosinofilia é o sinal clínico-laboratorial mais forte contra o diagnóstico de Calazar.

Qual a fisiopatologia da Larva Migrans Visceral?

A doença ocorre pela ingestão de ovos embrionados de Toxocara canis ou T. cati (presentes em solo contaminado por fezes de cães e gatos). As larvas eclodem no intestino, atravessam a mucosa e migram pela circulação para diversos órgãos, como fígado, pulmões e olhos. Como o ser humano é um hospedeiro acidental, as larvas não completam seu ciclo de maturação, mas sua migração tecidual desencadeia uma intensa resposta inflamatória granulomatosa e hipereosinofilia.

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