MedEvo Simulado — Prova 2026
Camila, 29 anos, nuligesta, comparece à unidade de pronto atendimento com queixa de dor pélvica súbita e excruciante em fossa ilíaca esquerda, iniciada há cerca de 6 horas após uma aula de Pilates. Relata náuseas intensas e dois episódios de vômitos. A paciente está no 14º dia do ciclo menstrual e em uso de citrato de clomifeno para indução de ovulação devido a quadro de infertilidade por anovulação crônica. Ao exame físico, apresenta-se normotensa, com frequência cardíaca de 102 bpm e afebril. O abdome é doloroso à palpação profunda em anexo esquerdo, com sinal de descompressão brusca duvidoso. O teste de gravidez (Beta-hCG) é negativo. A ultrassonografia transvaginal com Doppler revela ovário esquerdo aumentado de volume (85 cm³), com estroma hiperecogênico e múltiplos folículos deslocados para a periferia. O Doppler colorido demonstra fluxo arterial diastólico presente com índice de resistência elevado (0,88), porém o fluxo venoso intraparenquimatoso está ausente. Nota-se moderada quantidade de líquido livre na pelve. Diante do quadro clínico e achados de imagem, a conduta mais adequada é:
Dor pélvica súbita + náuseas + ovário aumentado ao USG → Laparoscopia com detorsão imediata.
A torção anexial é uma emergência cirúrgica onde o Doppler com fluxo arterial presente não exclui o diagnóstico, pois o fluxo venoso é o primeiro a ser comprometido pelo edema.
A torção anexial ocorre pela rotação do ovário e/ou trompa em torno de seu suporte vascular (ligamentos infundíbulo-pélvico e útero-ovariano). Isso leva inicialmente à obstrução do retorno venoso e linfático, resultando em edema maciço e aumento do volume ovariano. Se a torção persistir, a pressão tecidual supera a pressão arterial, levando à isquemia, infarto e necrose hemorrágica. O quadro clínico clássico envolve dor pélvica aguda, unilateral e excruciante, frequentemente associada a náuseas e vômitos devido ao reflexo autonômico. O diagnóstico é clínico-radiológico, sendo a ultrassonografia transvaginal com Doppler a modalidade de escolha. O tratamento deve ser cirúrgico e o mais precoce possível para evitar a perda definitiva da função endócrina e reprodutiva. A detorsão é preferível à ooforectomia na maioria dos casos, mesmo quando o ovário apresenta aspecto cianótico ou hemorrágico, devido à notável capacidade de recuperação do tecido ovariano após a reperfusão. A estabilização hemodinâmica e analgesia devem preceder a intervenção, mas não devem atrasar o encaminhamento ao centro cirúrgico.
Não. O Doppler pode mostrar fluxo arterial preservado em estágios iniciais ou intermitentes da torção, pois as artérias têm paredes mais espessas e maior pressão hidrostática que as veias. O achado ultrassonográfico mais sensível e precoce é o aumento do volume ovariano (geralmente > 20 cm³) e o edema do estroma hiperecogênico, com folículos deslocados para a periferia. A ausência de fluxo venoso intraparenquimatoso é um marcador muito mais fidedigno de comprometimento vascular do que a ausência de fluxo arterial. Portanto, a suspeita clínica deve prevalecer sobre um Doppler arterial normal.
A conduta padrão ouro é a laparoscopia de urgência com detorsão do anexo. Antigamente, temia-se o risco de tromboembolismo venoso ao distorcer um ovário isquêmico ou 'escuro', mas evidências modernas demonstram que esse risco é desprezível e não justifica a ooforectomia primária. A preservação do ovário é a prioridade absoluta, especialmente em pacientes em idade fértil. A ooforectomia só deve ser considerada em casos raros de necrose completa com liquefação do parênquima ou quando há suspeita de malignidade em mulheres na pós-menopausa. Na maioria dos casos, o ovário recupera sua função após a detorsão.
O principal fator de risco é a presença de uma massa ovariana, geralmente entre 5 e 10 cm, como cistos dermoides (teratomas) ou cistos funcionais. Massas muito grandes são menos propensas a torcer devido à falta de espaço na pelve. Pacientes em tratamento para infertilidade com indutores de ovulação, como o citrato de clomifeno, apresentam risco aumentado devido ao crescimento folicular múltiplo e aumento volumétrico bilateral dos ovários, o que altera o centro de gravidade do anexo e facilita a rotação sobre o pedículo vascular. A gravidez também é um período de risco aumentado, especialmente no primeiro trimestre.
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