Tamponamento Cardíaco e Pulso Paradoxal na Nefropatia

Santa Casa de São Paulo - ISCMSP/FCMSCSP (SP) — Prova 2026

Enunciado

Homem de 50 anos é acometido de nefropatia há 18 meses. Devido a trombose de fistula arteriovenosa em membro superior esquerdo e perda de vários cateteres de Shilley está sem hemodiálise eficiente. É admitido no pronto-socorro referindo astenia, vômitos e alguns episódios de tontura associada à hipotensão postural. Ao exame físico está descorado, PA: 85×70 mmHg, turgência jugular +++ e bulhas hipofonéticas. Os membros inferiores não se encontram edemaciados. O achado mais provável neste paciente será:

Alternativas

  1. A) Frequência cardíaca de 52 batimentos por minuto.
  2. B) Crepitação em metade inferior do tórax, bilateralmente.
  3. C) Queda da pressão sistólica de 12 mmHg durante inspiração.
  4. D) Onda U no eletrocardiograma.
  5. E) Alcalose metabólica na gasometria venosa.

Pérola Clínica

Hipotensão + Turgência jugular + Bulhas abafadas = Tamponamento (Pulso Paradoxal).

Resumo-Chave

O tamponamento cardíaco em pacientes renais crônicos geralmente decorre de pericardite urêmica. O pulso paradoxal (queda >10mmHg na PAS inspiratória) é o achado clínico clássico.

Contexto Educacional

O tamponamento cardíaco é uma condição de baixo débito cardíaco causada pelo acúmulo de líquido no espaço pericárdico, resultando em compressão das câmaras cardíacas. Em pacientes com doença renal crônica terminal e diálise inadequada, a pericardite urêmica é uma causa frequente de derrame pericárdico hemorrágico ou serofibrinoso. O diagnóstico é eminentemente clínico, baseado na instabilidade hemodinâmica e sinais de congestão sistêmica sem congestão pulmonar. O achado de pulso paradoxal (queda da PAS > 10 mmHg na inspiração) é altamente sugestivo, refletindo a interdependência ventricular extrema. Outros achados eletrocardiográficos podem incluir baixa voltagem do complexo QRS e alternância elétrica. O tratamento definitivo requer pericardiocentese de emergência ou janela pericárdica, além da otimização da diálise.

Perguntas Frequentes

O que define o pulso paradoxal no tamponamento cardíaco?

O pulso paradoxal é definido como uma queda exagerada da pressão arterial sistólica (superior a 10 mmHg) durante a inspiração espontânea. Fisiologicamente, na inspiração, o aumento do retorno venoso para o ventrículo direito (VD) causa um leve abaulamento do septo interventricular para a esquerda, reduzindo discretamente o enchimento do ventrículo esquerdo (VE). No tamponamento cardíaco, devido à restrição externa pelo líquido pericárdico, esse fenômeno é exacerbado (interdependência ventricular), resultando em uma queda significativa do débito cardíaco do VE e da pressão sistólica durante a fase inspiratória.

Como identificar a Tríade de Beck no exame físico?

A Tríade de Beck é composta por três sinais clássicos de tamponamento cardíaco agudo: hipotensão arterial (devido à redução do volume sistólico), turgência jugular patológica (refletindo o aumento das pressões de enchimento das câmaras direitas) e bulhas cardíacas hipofonéticas ou abafadas (devido à interposição do líquido pericárdico entre o coração e o estetoscópio). Embora clássica, a tríade completa está presente em apenas uma minoria dos casos, exigindo alta suspeição clínica em pacientes de risco, como aqueles com uremia ou trauma torácico.

Qual a fisiopatologia da pericardite urêmica?

A pericardite urêmica ocorre em pacientes com insuficiência renal avançada (geralmente com ureia > 60-100 mg/dL) e resulta da irritação do pericárdio por toxinas urêmicas e produtos metabólicos não dialisados. Diferente de outras pericardites, frequentemente não apresenta o supradesnivelamento de ST clássico no ECG, pois a inflamação é mais superficial e não envolve o epicárdio subjacente. O acúmulo de líquido pode ser rápido ou insidioso, evoluindo para tamponamento se a pressão intrapericárdica exceder a pressão de enchimento das câmaras cardíacas.

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