Definição de Surto em Doença Meningocócica: Critérios

USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2023

Enunciado

Caso 6O serviço municipal de vigilância epidemiológica (SMVE) de uma cidade do interior do estado foi acionado para investigar a ocorrência de um “caso de meningite”, no campus da universidade pública local, na data de 18 março de 2022. O campus sedia 10 cursos de graduação e tem cerca de 4.000 alunos, 350 professores e 400 funcionários.Em 16 de março de 2022, um jovem do sexo masculino (CASO 1), 20 anos, aluno do 2º ano do curso de Medicina Veterinária, apresentou os primeiros sintomas, com início súbito de febre, cefaleia intensa e rigidez de nuca ao exame clínico. Foi atendido na emergência do hospital universitário e internado no mesmo dia.Em 19 de março de 2022, o SMVE recebeu a notificação feita por hospital da rede privada de outro caso suspeito de meningite, de paciente do sexo masculino (CASO 2), 22 anos, vendedor de loja no shopping center da cidade, com início dos sintomas em 17 de março de 2022.Os dois pacientes não se conheciam, porém ambos relatavam ter participado da festa de recepção aos calouros, realizada no dia 11 de março de 2022. Os organizadores informaram que 1.305 pessoas estiveram na festa, número registrado na portaria da casa noturna a partir do QR code dos ingressos. O estudante (CASO 1) mora em uma “república”, como é tradicional na cidade, com outros 9 moradores. Ele divide o quarto com um outro estudante. Já o vendedor (CASO 2) mora na casa de sua família, onde vivem os seus pais e dois irmãos menores.Em 20 de março de 2022, a prefeitura do campus foi informada do falecimento de uma outra estudante (CASO 3), de 19 anos, caloura do curso de Medicina. As suas aulas iniciaram-se em 7 de março de 2022. Em 12 de março de 2022 ela havia viajado para a casa de sua família, em um município próximo; no dia 15 de março 2022, havia apresentado quadro de cefaleia intensa, mal-estar geral e febre, sendo internada na Santa Casa do município. Em seguida, apresentou manchas hemorrágicas em mãos e pés, evoluindo para choque e óbito, 12 horas após a admissão hospitalar. Na Declaração de Óbito foi registrada, como causa básica, “septicemia” (CID A41). Uma colega de turma informou à equipe de vigilância epidemiológica que esta paciente também havia participado da festa de recepção dos calouros, em 11 de março de 2022. No caso 1, o exame laboratorial confirmou a infecção por Neisseria meningitidis. O isolado foi encaminhado ao laboratório central de saúde pública do estado, para sorogrupagem. O sorogrupo B foi identificado. O caso 2 também teve o exame coletado e foi reagente para N. meningitidis. Não foi encaminhado material para sorogrupagem. O SMVE confirmou o caso 3 por critério clínico-epidemiológico. Em relação à ocorrência de doença meningocócica no município, a página da Secretaria Municipal de Saúde divulgou a seguinte tabela: Considerando as informações, é possível afirmar que ocorreu um surto de doença meningocócica neste município? 

Alternativas

  1. A) Não, pelo pequeno número de casos. 
  2. B) Sim, pelo aumento da incidência em 2022. 
  3. C) Sim, pelo agregado de casos com vínculo epidemiológico entre si. 
  4. D) Não, pelo diagnóstico incompleto ou não realizado em dois casos.

Pérola Clínica

Surto = ≥2 casos da mesma doença com vínculo epidemiológico (tempo/lugar/pessoa).

Resumo-Chave

A caracterização de um surto não depende apenas de um limiar numérico fixo, mas da ocorrência de casos relacionados entre si por um evento comum, superando a incidência esperada para a região.

Contexto Educacional

A doença meningocócica é uma das patologias de maior relevância para a vigilância epidemiológica devido à sua alta letalidade e potencial de disseminação rápida. A identificação de um surto permite que as autoridades de saúde implementem medidas de controle, como a quimioprofilaxia, que visa interromper a cadeia de transmissão ao tratar portadores assintomáticos da bactéria na nasofaringe. No cenário descrito, a presença de três casos (um confirmado laboratorialmente como sorogrupo B, um reagente e um por critério clínico-epidemiológico com óbito) todos ligados a um evento comum, preenche os critérios clássicos de surto. A vigilância deve agir rapidamente para identificar todos os participantes da festa e orientar sobre sinais de alerta, além de garantir o tratamento adequado dos casos confirmados.

Perguntas Frequentes

O que define tecnicamente um surto epidemiológico?

Um surto é definido como a ocorrência de dois ou mais casos de uma doença que apresentam um vínculo epidemiológico entre si, ou seja, estão relacionados no tempo, no espaço ou entre pessoas. Também pode ser definido como o aumento repentino do número de casos de uma doença em uma área geográfica específica, ultrapassando o limite superior esperado (diagrama de controle) para aquele período e local.

Qual a importância do vínculo epidemiológico neste caso?

O vínculo epidemiológico é a chave para o diagnóstico de surto nesta questão. Embora os pacientes morem em locais diferentes e tenham ocupações distintas, todos participaram do mesmo evento social (festa de calouros) poucos dias antes do início dos sintomas. Isso indica uma fonte comum de exposição ou uma cadeia de transmissão ativa dentro daquele grupo social, exigindo medidas de bloqueio imediatas.

Quais medidas devem ser tomadas em um surto de meningite?

As medidas imediatas incluem a notificação compulsória em até 24 horas, a quimioprofilaxia dos contatos próximos (geralmente com Rifampicina) para eliminar o estado de portador na orofaringe, e o monitoramento de novos casos suspeitos. Em situações de surto comunitário persistente, a vacinação de bloqueio pode ser considerada após análise técnica do sorogrupo predominante pela vigilância epidemiológica.

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