USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2023
Homem, 35 anos, previamente hígido. Iniciou com queixa de episódios de palpitações, associadas à sensação de falta de ar, perda de apetite e desconforto no peito. Nega tristeza, desânimo, fadiga, irritabilidade ou nervosismo. Não associa o quadro a nenhum evento recente em sua vida. Diz estar tranquilo, menos estressado, agora que saiu do emprego. Tem preocupação de ser algum problema no coração, pois seu tio morreu de infarto aos 75 anos. Recentemente passou em consulta médica, tendo recebido a orientação de que não era nada grave. Fez eletrocardiograma, holter e dosagem de TSH. Todos os resultados foram normais, mas Carlos continua com a queixa. A esposa diz que ele costuma apresentar esses sintomas quando se senta para fazer as contas da família ou quando recebe alguma conta para pagar. Ele não tem história pessoal nem familiar de transtorno mental.Assinale a alternativa que apresenta o registro adequado para o item de avaliação do SOAP desta consulta – de acordo com o Registro Orientado por Problemas –, assim como uma intervenção no atendimento.
Sintomas físicos inespecíficos + exames normais + gatilhos emocionais → Investigar ansiedade/somatização com escuta ativa.
Diante de sintomas físicos como palpitações e desconforto torácico, com exames complementares normais, é fundamental explorar o contexto psicossocial do paciente. A negação de ansiedade direta, mas a presença de gatilhos claros (problemas financeiros, relatados pela esposa), sugere somatização ou ansiedade subjacente, exigindo uma abordagem empática e investigativa.
A abordagem de pacientes com sintomas físicos inespecíficos, como palpitações e desconforto torácico, que já foram investigados organicamente sem achados patológicos, é um desafio comum na medicina. Frequentemente, esses sintomas podem ter um componente psicossomático ou serem manifestações de ansiedade, mesmo que o paciente negue diretamente sentir-se ansioso ou nervoso. Nesses casos, a comunicação médico-paciente e a escuta ativa são ferramentas diagnósticas e terapêuticas poderosas. Em vez de focar imediatamente em um diagnóstico psiquiátrico formal, é mais produtivo explorar a percepção do paciente sobre seus sintomas e a possível relação com eventos de vida ou estressores, como o relato da esposa sobre os gatilhos financeiros. A intervenção proposta na alternativa correta ('Você acha que seus sintomas podem ter relação com o que sua esposa relatou?') é um exemplo de como o médico pode introduzir a dimensão psicossocial de forma não confrontacional, validando a experiência do paciente e convidando-o à reflexão. O registro no SOAP deve focar na queixa principal do paciente ('Palpitações') e, na avaliação, considerar a hipótese de ansiedade ou somatização, planejando uma abordagem que inclua psicoeducação e, se necessário, encaminhamento.
É crucial validar a queixa do paciente, investigar o contexto psicossocial e os possíveis gatilhos, e explorar a percepção do paciente sobre a relação entre seus sintomas e eventos de vida, antes de rotular a condição.
A escuta ativa e empática permite ao médico compreender a experiência do paciente, identificar padrões e gatilhos, e construir uma relação de confiança, facilitando a adesão ao plano terapêutico e a exploração de componentes psicossociais.
Prescrever medicação como propranolol para palpitações sem investigar a causa subjacente, especialmente quando exames orgânicos são normais e há indícios de ansiedade, pode mascarar o problema real e não resolver a queixa do paciente a longo prazo.
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