MedEvo Simulado — Prova 2026
Dona Eunice, 79 anos, encontra-se no 5º dia de pós-operatório de uma artroplastia total de quadril após fratura de fêmur proximal. Evolui com distensão abdominal progressiva e parada de eliminação de flatos e fezes há 30 horas, acompanhada de náuseas leves, sem vômitos. Ao exame físico, apresenta-se em bom estado geral, eupneica, com abdome muito distendido, timpanismo difuso e ruídos hidroaéreos presentes, porém metálicos e raros. Não há sinais de irritação peritoneal ao exame físico. O toque retal revela ampola retal vazia. Exames laboratoriais mostram: Hemoglobina 11,2 g/dL, Leucócitos 9.200/mm³, Potássio 3,9 mEq/L, Magnésio 2,0 mg/dL e Creatinina 1,1 mg/dL. Uma tomografia de abdome sem contraste evidenciou acentuada dilatação de todo o cólon, com o ceco atingindo 12,5 cm de diâmetro, sem evidência de fator obstrutivo mecânico ou transição abrupta de calibre. Foi instituído jejum, passagem de sonda nasogástrica em sifonagem e correção de eventuais distúrbios hidroeletrolíticos por 24 horas, sem melhora do quadro clínico ou radiológico. Com base nesse cenário, a conduta mais adequada é:
Ogilvie refratário (ceco > 12cm) → Neostigmina 2mg IV (monitorizar bradicardia).
A Síndrome de Ogilvie é uma dilatação maciça do cólon sem obstrução mecânica. Se o tratamento conservador falha ou o ceco excede 12cm, a neostigmina é a primeira linha farmacológica.
A Síndrome de Ogilvie, ou pseudo-obstrução colônica aguda, caracteriza-se por uma dilatação maciça do cólon (especialmente o direito e ceco) na ausência de uma causa mecânica obstrutiva. É comum em pacientes idosos, hospitalizados, com distúrbios metabólicos ou no pós-operatório de cirurgias ortopédicas e pélvicas. A fisiopatologia envolve um desequilíbrio do sistema nervoso autônomo, com supressão da atividade parassimpática ou excesso de atividade simpática. O diagnóstico é confirmado por imagem (RX ou TC) mostrando dilatação colônica sem ponto de transição. O risco de perfuração cecal aumenta significativamente quando o diâmetro ultrapassa 10-12 cm. O tratamento inicial é conservador (jejum, sonda nasogástrica, correção eletrolítica). Na falha deste, a neostigmina, um inibidor da acetilcolinesterase, promove a motilidade colônica. Se houver sinais de isquemia ou perfuração (peritonite), a conduta passa a ser cirúrgica de urgência.
A neostigmina é indicada quando há falha no tratamento conservador inicial (jejum, descompressão gástrica, correção de eletrólitos) após 24 a 48 horas, ou imediatamente se o diâmetro cecal for muito elevado (>10-12 cm) com risco iminente de perfuração, desde que não haja sinais de peritonite ou obstrução mecânica confirmada por imagem.
O principal efeito adverso é a bradicardia grave e broncoespasmo, devido à sua ação colinérgica. Por isso, deve ser administrada em ambiente monitorizado com atropina disponível à beira do leito. Contraindicações incluem gravidez, asma não controlada, bradicardia sinusal, bloqueios atrioventriculares e evidência de obstrução mecânica intestinal ou urinária.
A colonoscopia descompressiva é reservada para pacientes que têm contraindicação ao uso de neostigmina ou que não responderam a pelo menos duas doses do medicamento. Ela visa aspirar o gás e reduzir a tensão parietal, sendo um procedimento tecnicamente difícil devido à ausência de preparo de cólon e ao risco de perfuração iatrogênica.
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