UERJ/HUPE - Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ) — Prova 2020
Criança de dois anos, previamente hígida, é levada à emergência devido a quadro de “inchaço no corpo e urina com espuma” nas últimas 48 horas. Há cerca de duas semanas, o paciente apresentou quadro de resfriado. Ao exame, encontra-se em regular estado geral, vígil e orientado, anictérico, acianótico, em anasarca e corado com boa perfusão periférica. O aparelho respiratório encontra-se com murmúrio vesicular abolido em ambas as bases pulmonares, com leve tiragem subcostal; o aparelho cardiovascular está com ritmo cardíaco regular, bulhas hipofonéticas e sem sopros; abdomên em batráquio, piparote positivo, não sendo possível palpação de massas ou visceromegalias devido ao edema. FC = 100bpm, FR = 50irpm, PA = 90 x 50mmHg e SatO₂ = 95%. Os exames complementares mostram hemograma e leucograma normais; ureia = 20mg/dL, creatinina = 0,6mg/dL, sódio = 150mEq/L, potássio = 5mEq/L, proteínas totais = 4g/dL (albumina = 2,0g/dL / globulinas = 2,0g/dL), colesterol total = 300mg/dL; a urianálise apresenta proteinúria 4+/4+, sem hematúria e com cilindros hialinos. Aponte o diagnóstico sindrômico.
Edema + Proteinúria 4+ + Hipoalbuminemia + Hipercolesterolemia = Síndrome Nefrótica (Lesão Mínima é a principal causa).
A Síndrome Nefrótica pediátrica é definida pela perda maciça de proteínas na urina, resultando em hipoalbuminemia e edema generalizado. A ausência de hematúria e hipertensão direciona o diagnóstico para a forma pura (nefrótica).
A Síndrome Nefrótica na infância representa um desafio clínico devido às complicações potenciais, como infecções (por perda de imunoglobulinas e fatores do complemento) e eventos tromboembólicos. A fisiopatologia do edema envolve a redução da pressão oncótica plasmática (hipótese do underfill) e a retenção primária de sódio (hipótese do overfill). O manejo inicial em pediatria geralmente é empírico com prednisona, reservando a biópsia renal para casos de resistência ao corticoide, recidivas frequentes ou apresentações atípicas (como idade < 1 ano ou > 10 anos, hematúria macroscópica ou hipocomplementenemia). O prognóstico da Doença de Lesões Mínimas é geralmente favorável, embora recaídas sejam comuns.
O diagnóstico baseia-se na presença de proteinúria maciça (geralmente > 40 mg/m²/hora ou relação proteína/creatinina urinária > 2), hipoalbuminemia (albumina sérica < 2,5 g/dL) e edema. A hiperlipidemia (colesterol total elevado) é um achado associado comum devido à estimulação hepática de lipoproteínas.
Em crianças entre 1 e 7 anos, a Doença de Lesões Mínimas (DLM) responde por cerca de 80-90% dos casos de Síndrome Nefrótica. O quadro clínico típico é de início súbito, muitas vezes após um gatilho infeccioso (como o resfriado citado), com excelente resposta a corticoides e ausência de sinais de nefrite.
A Síndrome Nefrótica foca na perda proteica (edema intenso/anasarca, urina espumosa, colesterol alto). A Síndrome Nefrítica foca na inflamação glomerular (hematúria, hipertensão, edema leve e redução da função renal/oligúria). O caso apresenta proteinúria 4+ e anasarca sem hematúria, selando o diagnóstico nefrótico.
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