FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2024
A síndrome de Cockett/May-Thurner é caracterizada por qual das alterações a seguir?
Cockett/May-Thurner = Veia ilíaca comum esquerda comprimida pela artéria ilíaca comum direita.
A Síndrome de May-Thurner é uma compressão anatômica extrínseca da veia ilíaca comum esquerda, predispondo a TVP unilateral e insuficiência venosa crônica em pacientes jovens.
A Síndrome de May-Thurner é uma condição vascular subdiagnosticada que explica por que a trombose venosa profunda é significativamente mais comum no membro inferior esquerdo do que no direito (proporção de aproximadamente 3:1 a 8:1 em algumas séries). A variante anatômica está presente em até 20-25% da população geral, mas apenas uma fração desenvolve sintomas clínicos. A transição de uma variante anatômica para uma síndrome clínica depende do grau de compressão e da formação de alterações fibróticas na íntima venosa. Na prática médica, o reconhecimento desta síndrome é crucial porque o tratamento convencional da TVP apenas com anticoagulação não resolve a causa mecânica subjacente, levando a altas taxas de síndrome pós-trombótica e recorrência. O avanço das técnicas endovasculares permitiu que o tratamento com stents venosos se tornasse o padrão, apresentando excelentes taxas de patência a longo prazo e melhora significativa na qualidade de vida dos pacientes com insuficiência venosa crônica grave de origem obstrutiva ilíaca.
A fisiopatologia da Síndrome de May-Thurner (ou Cockett) baseia-se na compressão mecânica da veia ilíaca comum esquerda pela artéria ilíaca comum direita contra o corpo vertebral de L5. Além da obstrução física ao fluxo venoso, o trauma pulsátil crônico da artéria sobre a parede da veia induz uma proliferação intimal e a formação de traves fibrosas endoluminais, conhecidas como 'spurs' ou sinéquias. Essas alterações histológicas criam um ambiente altamente trombogênico e dificultam o retorno venoso, levando à estase venosa crônica e aumentando significativamente o risco de eventos trombóticos agudos no membro inferior esquerdo.
Clinicamente, deve-se suspeitar em pacientes (frequentemente mulheres jovens) com edema unilateral de membro inferior esquerdo, dor ou sinais de insuficiência venosa crônica sem causa aparente. O diagnóstico por imagem geralmente começa com o Doppler colorido, que pode mostrar ausência de fasticidade respiratória na veia femoral. A Angiotomografia ou Angiorressonância venosa são úteis para visualizar a compressão anatômica e excluir outras massas pélvicas. No entanto, o padrão-ouro para confirmação e planejamento terapêutico é o Ultrassom Intravascular (IVUS) associado à venografia, que permite medir com precisão o grau de estenose luminal.
O tratamento visa aliviar a obstrução venosa e prevenir a recorrência de tromboses. Em pacientes assintomáticos descobertos incidentalmente, o manejo pode ser conservador. Para pacientes sintomáticos ou com TVP aguda, o tratamento de escolha é endovascular: angioplastia com balão seguida de implante de stent venoso autoexpansível na veia ilíaca comum esquerda. O stent é necessário porque a compressão arterial externa causaria o recolhimento elástico imediato da veia se apenas o balão fosse utilizado. Em casos de TVP aguda associada, a trombólise farmacomecânica pode ser realizada antes do stenting para limpar o trombo e restaurar a patência.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo