Santa Casa de Campo Grande (MS) — Prova 2026
Menina de 8 anos apresenta febre há 3 dias, dor abdominal e vômitos. Evolui com hipotensão, exantema e sinais de conjuntivite bilateral. Histórico de infecção por Sars-Cov-2 há 4 semanas. Qual é a principal suspeita diagnóstica?
Febre + disfunção orgânica + exantema + COVID-19 há 4-6 semanas → SIM-P.
A SIM-P é uma condição hiperinflamatória tardia pós-infecção por SARS-CoV-2, caracterizada por febre persistente, acometimento multissistêmico e alta frequência de choque.
A Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) surgiu como uma complicação grave e tardia da infecção pelo SARS-CoV-2 em crianças e adolescentes. Diferente da fase aguda da COVID-19, que costuma ser leve nessa faixa etária, a SIM-P manifesta-se semanas após o contato viral, sugerindo um mecanismo imunomediado de hiperinflamação. O quadro clínico é dramático, mimetizando frequentemente o choque séptico ou a Doença de Kawasaki, mas com particularidades como o intenso acometimento miocárdico e gastrointestinal. O diagnóstico exige alto índice de suspeição, especialmente em pacientes com febre de origem indeterminada e sinais de falência orgânica. A avaliação laboratorial revela uma 'tempestade de citocinas', com elevação extrema de marcadores inflamatórios e cardíacos (troponina e NT-proBNP). O manejo multidisciplinar precoce é fundamental para reduzir a morbimortalidade, focando na estabilização hemodinâmica e na interrupção da cascata inflamatória com imunoglobulinas e corticoides.
A Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) é definida por febre persistente (≥ 3 dias) em indivíduos de 0 a 19 anos, associada a pelo menos dois dos seguintes critérios: exantema ou conjuntivite bilateral não purulenta ou sinais de inflamação mucocutânea; hipotensão ou choque; disfunção miocárdica, pericardite, valvulite ou anomalias coronarianas; evidência de coagulopatia; e sintomas gastrointestinais agudos. Além disso, é obrigatória a elevação de marcadores inflamatórios (como VHS, PCR ou procalcitonina) e a exclusão de outras causas microbianas de inflamação, como sepse bacteriana ou síndromes de choque estafilocócico. Fundamentalmente, deve haver evidência de infecção recente ou atual por SARS-CoV-2 (RT-PCR, teste antigênico ou sorologia positiva) ou contato próximo com caso confirmado de COVID-19 nas semanas que antecederam o quadro clínico.
Embora compartilhem características como febre, exantema e conjuntivite, a SIM-P geralmente ocorre em crianças mais velhas e adolescentes (idade mediana de 8-11 anos), enquanto a Doença de Kawasaki (DK) é mais comum em lactentes e crianças abaixo de 5 anos. Clinicamente, a SIM-P apresenta uma incidência muito maior de sintomas gastrointestinais graves (dor abdominal, vômitos) e choque cardiogênico ou distributivo, exigindo frequentemente suporte inotrópico. Laboratorialmente, a SIM-P cursa com linfopenia e trombocitopenia mais acentuadas, além de níveis de ferritina e PCR significativamente mais elevados do que na DK clássica. O histórico de exposição ao SARS-CoV-2 nas 2 a 6 semanas anteriores é o marcador epidemiológico chave para a SIM-P.
O tratamento da SIM-P baseia-se na modulação da resposta inflamatória exacerbada. A primeira linha terapêutica geralmente envolve a administração de Imunoglobulina Intravenosa (IGIV) em dose alta (2 g/kg), frequentemente associada a corticosteroides (como metilprednisolona), especialmente em casos moderados a graves ou com choque. O suporte hemodinâmico em unidade de terapia intensiva é crucial, podendo incluir expansão volêmica cautelosa e uso de drogas vasoativas. Devido ao risco de fenômenos trombóticos e aneurismas de coronárias, a antiagregação plaquetária com ácido acetilsalicílico (AAS) ou anticoagulação plena (em casos de disfunção ventricular grave ou aneurismas gigantes) também deve ser considerada conforme os protocolos institucionais e a gravidade do quadro clínico.
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