FAMENE - Faculdade de Medicina Nova Esperança (PB) — Prova 2023
Homem de 44 anos, com dor leve contínua em hipocôndrio esquerdo, não aliviada por analgésicos comuns, associada à queimação epigástrica importante, sem melhora após medidas higiênico-dietéticas e antiácidos há 2 anos. Há 8 meses apresenta lesões úlcero-crostosas, eritematosas em lábios e ulceradas em mucosa jugal, dolorosas, sangrantes e máculas eritematosas que evoluíram rapidamente para lesões úlcero-crostosas, eritematosas, não pruriginosas, não dolorosas, não sangrantes, difusas em face, pescoço e membros superiores, piores em áreas expostas ao sol. Nenhum antecedente familiar, social, patológico ou laboral relevante, sem história de alergias ou atopia. Exame físico: normocorado, baço palpável a 5cm da borda costal esquerda, ausência de linfonodomegalia e lesões mucocutâneas já descritas. Hemograma: hemoglobina 10 mg/dL, leucócitos 18,2x109 /L, eosinófilos 9,1x109 /L (sem anormalidades morfológicas), plaquetas 177x109 /L. Desidrogenase láctica, ferritina, albumina, vitamina B12 e IgE séricas normais. Sorologias para HIV e hepatites virais, provas reumatológicas e inflamatórias negativas. Pesquisas negativas para ovos e parasitas nas fezes, com persistência da eosinofilia após cursos de albendazol e ivermectina. Ecodopplercardiograma com espessamento mitral, ultrassonografia abdominal com esplenomegalia homogênea (16 cm) e tomografias (tórax/abdome) sem achados relevantes. Endoscopia digestiva demonstrou gastrite enantematosa leve e biópsia de mucosa gástrica com gastrite crônica moderada, sem evidência de infecção pelo helicobacter pilory. Biópsia de pele com ectasia vascular inespecífica e biópsia de mucosa jugal com ulceração mucosa e infiltrado coriônico difuso por mononucleares, neutrófilos e eosinófilos. Aspirado MO: hipercelular, relação G/E: 5/1, série granulocítica hipercelular, com escalonamento maturativo preservado (blastos 2%) e presença de eosinofilia (30%). Biópsia MO: celularidade 100%, 90% da qual representada por eosinófilos e precursores. Cariótipo MO (banda G): 46, XY em 20 metáfases. Pesquisa BCR-ABL (RT-PCR): negativa. Hibridação in situ por fluorescência (FISH) para anormalidade de CHIC₂, testado com sonda 4q12 (FIP1L1, CHIC₂, PDGFRα): 85.5% núcleos com um sinal CHIC₂, dois sinais FIP1L1 e PDGFRα em 200 célula. Iniciado tratamento com imatinibe, 100 mg/dia, com resolução das dermatoses das queixas gastrointestinais após 15 dias e desaparecimento dos sinais de esplenomegalia após 30 dias de tratamento. Com base no caso descrito acima, qual a alternativa correta?
Síndrome Hipereosinofílica FIP1L1-PDGFRA: eosinofilia persistente, multissistêmica, responde a imatinibe; cardiopatia é a maior causa de morbimortalidade.
O caso descreve uma Síndrome Hipereosinofílica (HES) com a fusão FIP1L1-PDGFRA, uma neoplasia mieloproliferativa. A cardiopatia, manifestada por espessamento mitral, é uma complicação grave e a principal causa de morbimortalidade, ocorrendo em até 50% dos casos devido à infiltração eosinofílica e fibrose endomiocárdica.
A Síndrome Hipereosinofílica (HES) é um grupo heterogêneo de doenças caracterizadas por eosinofilia persistente (>1.500 eosinófilos/mm³ por mais de 6 meses ou evidência de disfunção orgânica relacionada à eosinofilia) e ausência de outras causas conhecidas de eosinofilia. É uma condição rara, mas potencialmente grave, que pode afetar múltiplos órgãos e sistemas. A importância clínica reside na necessidade de um diagnóstico preciso para diferenciar as formas primárias (neoplásicas) das secundárias, e para iniciar o tratamento adequado que pode prevenir danos irreversíveis aos órgãos. A fisiopatologia da HES envolve a produção excessiva de eosinófilos e a liberação de seus grânulos tóxicos, que causam inflamação e dano tecidual. O caso descrito ilustra a HES associada à fusão FIP1L1-PDGFRA, uma mutação genética que resulta em uma tirosina quinase constitutiva ativa, caracterizando uma neoplasia mieloproliferativa. O diagnóstico é feito pela combinação de eosinofilia persistente, envolvimento multissistêmico e, em casos específicos, a detecção da mutação FIP1L1-PDGFRA por técnicas como FISH ou RT-PCR. As manifestações clínicas são variadas, incluindo lesões cutâneas, sintomas gastrointestinais, esplenomegalia e, notavelmente, cardiopatia. O tratamento da HES depende da etiologia. Para a HES FIP1L1-PDGFRA, o imatinibe, um inibidor de tirosina quinase, é altamente eficaz, levando à remissão hematológica e clínica. Em outras formas de HES, corticosteroides são a primeira linha de tratamento. A cardiopatia, que pode se manifestar como endomiocardiofibrose e insuficiência cardíaca, é a principal causa de morbimortalidade na HES, ocorrendo em até 50% dos pacientes. O monitoramento cardíaco regular e o tratamento precoce são essenciais para prevenir complicações fatais. O prognóstico melhorou significativamente com o advento de terapias direcionadas.
A HES pode afetar múltiplos órgãos, incluindo pele (lesões úlcero-crostosas, eritema), trato gastrointestinal (dor, gastrite), coração (cardiomiopatia restritiva, endomiocardiofibrose), pulmões (infiltrados), sistema nervoso e baço (esplenomegalia). As manifestações são decorrentes da infiltração tecidual por eosinófilos e liberação de mediadores tóxicos.
A cardiopatia é a principal causa de morbimortalidade devido à infiltração eosinofílica no miocárdio e endocárdio, levando à necrose, trombose e fibrose. Isso pode resultar em cardiomiopatia restritiva, insuficiência cardíaca, arritmias e valvulopatias, como o espessamento mitral descrito no caso.
A pesquisa da fusão FIP1L1-PDGFRA é crucial porque sua presença define um subtipo específico de HES (HES mieloproliferativa) que é altamente responsivo ao tratamento com inibidores de tirosina quinase, como o imatinibe. A identificação dessa mutação permite um tratamento direcionado e eficaz, com remissão completa em muitos casos.
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