INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2016
Uma mulher com 24 anos de idade comparece a uma Unidade Básica de Saúde e relata que apresenta ciclos menstruais irregulares e alguns episódios de fluxo menstrual aumentado. Refere que a menarca ocorreu aos 14 anos, com ciclos oligomenorreicos até os 22 anos. A paciente apresenta-se em bom estado geral, corada, com acne leve na face e tronco e hirsutismo leve. Seu índice de massa corporal é 29,8 kg/m² e, ao exame ginecológico, não se constatam alterações. A partir do quadro clínico descrito, qual a hipótese diagnóstica mais provável?
SOP = Oligo/anovulação + Hiperandrogenismo (clínico/lab) + Ovários policísticos (2 de 3).
A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é a causa mais comum de anovulação crônica e hiperandrogenismo em mulheres jovens, frequentemente associada à obesidade e resistência à insulina.
A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma endocrinopatia complexa e heterogênea. O quadro clínico clássico envolve uma paciente jovem com irregularidade menstrual desde a menarca (oligomenorreia), sinais de excesso androgênico (acne e hirsutismo) e, frequentemente, excesso de peso. A fisiopatologia central envolve uma disfunção na pulsatilidade do GnRH, levando a um aumento relativo do LH sobre o FSH, além da resistência insulínica periférica. No manejo clínico, é vital diferenciar a SOP de outras causas de irregularidade menstrual, como a falência ovariana precoce (onde haveria hipoestrogenismo e FSH elevado) ou o hipogonadismo hipogonadotrófico (FSH e LH baixos). O tratamento deve ser individualizado, focando na regulação do ciclo, controle do hiperandrogenismo e manejo das comorbidades metabólicas, como o risco aumentado para Diabetes Mellitus tipo 2 e síndrome metabólica.
O diagnóstico de SOP, segundo o consenso de Rotterdam, requer a presença de pelo menos dois dos três critérios a seguir: 1) Oligo-ovulação ou anovulação (geralmente manifestada como ciclos irregulares ou amenorreia); 2) Sinais clínicos de hiperandrogenismo (como hirsutismo, acne ou alopecia) e/ou evidência laboratorial de níveis elevados de andrógenos circulantes; 3) Imagem ultrassonográfica de ovários policísticos (presença de 12 ou mais folículos medindo entre 2-9 mm em cada ovário ou volume ovariano aumentado > 10 cm³). É fundamental excluir outras patologias que mimetizam a SOP, como hiperplasia adrenal congênita e tumores virilizantes.
O hirsutismo, que é o crescimento de pelos terminais em áreas dependentes de andrógenos na mulher, é clinicamente avaliado pela Escala de Ferriman-Gallwey modificada. Esta escala pontua a densidade de pelos em nove áreas do corpo (lábio superior, queixo, tórax, abdome superior, abdome inferior, braços, coxas, dorso superior e dorso inferior). Uma pontuação igual ou superior a 8 é geralmente considerada indicativa de hirsutismo na população brasileira, embora esse ponto de corte possa variar conforme a etnia. No caso clínico apresentado, o hirsutismo leve e a acne são marcadores de hiperandrogenismo clínico.
A obesidade, presente em cerca de 50% das mulheres com SOP, exacerba as alterações metabólicas e reprodutivas da síndrome. O tecido adiposo contribui para a resistência à insulina, que por sua vez estimula as células da teca ovariana a produzirem mais andrógenos e reduz a produção hepática de SHBG (globulina transportadora de hormônios sexuais), aumentando a fração livre de testosterona. Além disso, a conversão periférica de andrógenos em estrógenos no tecido adiposo altera o feedback hipotalâmico-hipofisário, perpetuando o ciclo de anovulação. A perda de peso é frequentemente a primeira linha de tratamento para restaurar a ovulação.
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