UNITAU - Universidade de Taubaté (SP) — Prova 2022
Paciente do sexo masculino, 62 anos, portador de hérnia inguino-escrotal volumosa há 6 anos, com dermatite na bolsa escrotal. Sem comorbidades relevantes. O conteúdo escrotal atingia até o terço médio da coxa esquerda. Foi submetido à hernioplastia inguinal pela técnica de Lichtenstein com ressecção parcial do grande omento. A cirurgia teve duração de 3 horas. Foi encaminhado para recuperação pós-anestésica, mantendo-se estável, sem uso de drogas vasoativas. No primeiro dia de pós-operatório, evoluiu com dor abdominal e dispneia, sendo necessária intubação e ventilação mecânica. Necessitou de ventilação com pressão positiva e PEEP. O abdômen apresentava-se tenso, frequência cardíaca de 120 bpm, pressão arterial de 80x60 mmHg, diurese de 300 mL em 12 horas. Nesse quadro, o que podemos pensar?
Redução de hérnia volumosa + dor abdominal + dispneia + abdômen tenso + hipotensão/oligúria = SCA.
A Síndrome Compartimental Abdominal (SCA) é uma complicação grave que pode ocorrer após a redução de hérnias inguino-escrotais volumosas. A reintrodução de grande volume de conteúdo abdominal em uma cavidade "acostumada" a ser menor eleva a pressão intra-abdominal (PIA), comprometendo a função respiratória (dispneia, necessidade de VM com PEEP), cardiovascular (hipotensão, taquicardia) e renal (oligúria).
A Síndrome Compartimental Abdominal (SCA) é uma condição grave e potencialmente fatal, caracterizada pelo aumento sustentado da pressão intra-abdominal (PIA) a níveis que comprometem a perfusão e a função de múltiplos órgãos. Embora possa ocorrer em diversos contextos clínicos, como trauma e sepse, é uma complicação reconhecida após a correção cirúrgica de hérnias abdominais ou inguino-escrotais volumosas de longa data. Nesses casos, a reintrodução de um grande volume de conteúdo intestinal ou omental para uma cavidade abdominal que se adaptou a um volume menor pode levar a um aumento abrupto da PIA. A fisiopatologia da SCA envolve a compressão de estruturas vasculares e órgãos abdominais. A elevação da PIA dificulta o retorno venoso para o coração, resultando em diminuição do débito cardíaco e hipotensão. A compressão dos vasos renais leva à oligúria e disfunção renal. No sistema respiratório, a PIA elevada empurra o diafragma para cima, reduzindo a complacência pulmonar, aumentando a pressão intratorácica e causando dispneia e necessidade de ventilação mecânica com altas pressões. O abdômen tenso e doloroso é um sinal clínico chave. O diagnóstico da SCA é primariamente clínico, baseado na suspeita em pacientes de risco com disfunção orgânica progressiva e abdômen tenso. A confirmação é feita pela medida da PIA (geralmente via cateter vesical). O tratamento é uma emergência cirúrgica, sendo a laparotomia descompressiva a intervenção mais eficaz para reduzir a PIA e restaurar a perfusão orgânica. Medidas não cirúrgicas, como otimização volêmica, sedação e relaxamento muscular, podem ser tentadas inicialmente, mas a descompressão cirúrgica é frequentemente necessária para evitar a falência de múltiplos órgãos e a morte.
Os fatores de risco incluem cirurgias abdominais extensas, trauma abdominal grave, pancreatite aguda grave, ascite volumosa, sepse, queimaduras extensas e, como no caso, a redução de hérnias abdominais ou inguino-escrotais volumosas de longa data, onde o conteúdo abdominal retorna a uma cavidade com volume funcional reduzido.
A elevação da pressão intra-abdominal (PIA) compromete múltiplos sistemas: respiratório (elevação diafragmática, diminuição da complacência pulmonar, dispneia), cardiovascular (compressão da veia cava inferior, diminuição do retorno venoso e débito cardíaco, hipotensão), renal (compressão dos vasos renais, oligúria/insuficiência renal) e cerebral (aumento da pressão intracraniana).
A conduta inicial envolve a monitorização da pressão intra-abdominal (geralmente por cateter vesical), otimização da volemia (com cautela), sedação e relaxamento muscular para melhorar a complacência da parede abdominal, e, se a PIA persistir elevada e houver disfunção orgânica, a descompressão cirúrgica de urgência (laparotomia descompressiva) é a medida mais eficaz.
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