CERMAM - Comissão Estadual de Residência Médica do Amazonas — Prova 2026
Lactente de 5 meses, sexo masculino, é levado inconsciente ao SPA após episódio de crise convulsiva. A mãe relata que o quadro ocorreu após sua irmã, de 2 anos, arremessar uma boneca com força contra o corpo do lactente. Fundoscopia: hemorragia retiniana bilateral. Hipótese mais provável:
Hemorragia retiniana bilateral + alteração de consciência em lactente = Síndrome do Bebê Sacudido até prova em contrário.
A discrepância entre a história clínica (trauma leve ou inexistente) e a gravidade dos achados (hemorragia retiniana, convulsão, coma) é o principal marcador de trauma craniano abusivo.
A Síndrome do Bebê Sacudido é uma forma grave de trauma craniano abusivo que ocorre quando um lactente é sacudido violentamente, geralmente por um cuidador frustrado com o choro inconsolável. Devido à anatomia do lactente — cabeça proporcionalmente grande, pescoço com musculatura fraca e cérebro com alto conteúdo de água e espaço subaracnóideo maior — o movimento de chicote causa o rompimento das veias pontes (levando ao hematoma subdural) e lesões axonais difusas por cisalhamento. Clinicamente, o quadro pode variar de sintomas inespecíficos, como vômitos e irritabilidade, até quadros neurológicos catastróficos com apneia e morte. A discrepância entre o relato da história (ex: 'caiu da cama' ou 'brinquedo bateu') e a gravidade das lesões observadas nos exames de imagem e fundo de olho é o sinal de alerta mais importante para o pediatra. O prognóstico é frequentemente reservado, com altas taxas de sequelas permanentes, como cegueira, paralisia cerebral e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.
A Síndrome do Bebê Sacudido, atualmente referida sob o termo mais amplo de Trauma Craniano Abusivo (TCA), é classicamente caracterizada por uma tríade de achados: 1) Hematoma subdural (frequentemente multiloculado ou de diferentes idades); 2) Encefalopatia (manifestada por irritabilidade, letargia, convulsões ou coma); 3) Hemorragias retinianas (geralmente bilaterais, extensas e em múltiplas camadas da retina). Embora a tríade seja altamente sugestiva, sua ausência não exclui o diagnóstico. Outros achados frequentes incluem fraturas de costelas posteriores (devido ao aperto do tórax durante a sacudida) e fraturas metafisárias em 'alça de balde' ou 'canto' nos ossos longos. O diagnóstico requer uma abordagem multidisciplinar e alta suspeição clínica diante de histórias inconsistentes.
A hemorragia retiniana é um marcador fundamental para o trauma craniano abusivo porque sua ocorrência em traumas acidentais comuns (como quedas da própria altura) é extremamente rara. No mecanismo de sacudida, as forças de aceleração e desaceleração angular repetitivas causam tração vítreo-retiniana, resultando em hemorragias que costumam ser bilaterais, numerosas e que se estendem até a periferia da retina, podendo atingir todas as camadas (pré-retiniana, intra-retiniana e sub-retiniana). Quando essas hemorragias são extensas e associadas a retinosquise (separação das camadas da retina), a especificidade para abuso infantil é altíssima. Por isso, a fundoscopia realizada por um oftalmologista experiente é obrigatória em qualquer lactente com lesão intracraniana sem explicação clara.
Ao suspeitar de Síndrome do Bebê Sacudido ou qualquer forma de maus-tratos, a prioridade imediata é a estabilização clínica da criança e a garantia de sua segurança. O médico tem o dever legal e ético de notificar o caso ao Conselho Tutelar e/ou autoridades policiais, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), independentemente de ter certeza absoluta. A investigação diagnóstica deve incluir: tomografia computadorizada de crânio (ou RM para melhor avaliação de lesões axonais), fundoscopia, inventário esquelético (série radiográfica de todos os ossos) e triagem laboratorial para distúrbios de coagulação (para excluir causas orgânicas de sangramento). A internação hospitalar é frequentemente necessária não apenas para tratamento, mas para proteção social enquanto a investigação prossegue.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo