HFA - Hospital das Forças Armadas (DF) — Prova 2020
Uma paciente de 35 anos de idade, com diagnóstico de gestação estabelecido há duas semanas, apresenta idade gestacional atual de doze semanas. Compareceu ao serviço de emergência, queixando-se de cólicas e sangramento vaginal intermitente e abundante iniciado há duas horas. Está ansiosa e chorosa, pois já sofreu dois abortos consecutivos previamente. O exame físico mostra colo entreaberto. A ultrassonografia descreve massa focal ecogênica sugestiva de restos ovulares. Com base nesse caso hipotético, julgue o item a seguir. Para o caso da paciente, deve ser aventada a possibilidade de a síndrome antifosfolipídeo ser a causa dos abortamentos.
Aborto recorrente (≥3 <10 sem ou ≥1 >10 sem) + trombose → Investigar Síndrome Antifosfolipídeo.
A Síndrome Antifosfolipídeo (SAF) é a principal causa de trombofilia adquirida tratável, devendo ser investigada em mulheres com perdas gestacionais recorrentes ou tardias inexplicadas.
A Síndrome Antifosfolipídeo (SAF) é uma doença autoimune caracterizada por um estado de hipercoagulabilidade mediado por anticorpos direcionados contra proteínas ligadas a fosfolipídios de membrana. Na obstetrícia, a fisiopatologia envolve não apenas a trombose de vasos placentários, mas também a inibição da diferenciação trofoblástica, ativação do complemento e inflamação na decídua, o que compromete a implantação e o desenvolvimento embrionário. O diagnóstico diferencial de abortamento de repetição deve sempre incluir a SAF, juntamente com anomalias uterinas, disfunções endócrinas (como hipotireoidismo e diabetes descompensado) e fatores genéticos parentais. A identificação correta é vital, pois o tratamento com aspirina e heparina altera drasticamente o desfecho reprodutivo, sendo uma das intervenções mais custo-efetivas na medicina reprodutiva atual.
Os critérios clínicos de Sydney para SAF obstétrica incluem: 1) Três ou mais abortos espontâneos consecutivos antes da 10ª semana de gestação, excluindo causas anatômicas, hormonais ou citogenéticas; 2) Uma ou mais mortes de fetos morfologicamente normais após a 10ª semana; ou 3) Um ou mais partos prematuros antes da 34ª semana devido a eclâmpsia, pré-eclâmpsia grave ou insuficiência placentária. Além do critério clínico, é obrigatória a presença de critério laboratorial (anticoagulante lúpico, anticardiolipina ou anti-beta2-glicoproteína I) em duas ocasiões com intervalo de pelo menos 12 semanas para confirmar o diagnóstico definitivo da síndrome.
O tratamento depende do histórico da paciente. Para SAF puramente obstétrica (sem eventos trombóticos prévios), o padrão-ouro é a combinação de Ácido Acetilsalicílico (AAS) em dose baixa (75-100mg/dia) associado à Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) em dose profilática, iniciados assim que a gestação é confirmada. Em pacientes com SAF e histórico de trombose vascular prévia, a HBPM deve ser utilizada em dose terapêutica durante toda a gestação e no puerpério. O objetivo é melhorar a placentação, reduzir a inflamação na interface materno-fetal e prevenir eventos trombóticos placentários que levam à perda gestacional ou complicações obstétricas graves.
A investigação de trombofilias, especialmente a SAF, é crucial porque estas condições representam causas tratáveis de perdas gestacionais. Enquanto causas genéticas (como translocações balanceadas) possuem prognóstico limitado, o diagnóstico de SAF permite uma intervenção farmacológica eficaz que eleva as taxas de sucesso gestacional de cerca de 20% para mais de 70-80%. Além disso, a SAF é uma doença sistêmica; identificá-la na gestação protege a mulher de futuros eventos tromboembólicos arteriais ou venosos fora do período gravídico-puerperal, permitindo um aconselhamento de saúde a longo prazo e manejo de riscos cardiovasculares.
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