SURCE - Sistema Único de Residência do Ceará — Prova 2022
Considere o caso clínico abaixo e os personagens nele ilustrados, para responder.Após ser aprovado e ingressar no Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade, você é direcionado para uma Unidade de Atenção Primária à Saúde (UAPS) para ser recebido pelo médico preceptor da Unidade. Em sua primeira participação de reunião de equipe, uma das agentes comunitárias de saúde (ACS) da equipe do médico preceptor traz o relato de uma gestante de sua microárea que não procurou a Unidade de Saúde para começar o pré-natal. A gestante era Vanessa e ela era antiga conhecida da equipe, porque seu finado pai, Seu Odair, fora uma liderança comunitária e era muito querido por todos. Vanessa tinha a primeira consulta de pré-natal agendada para o primeiro horário depois da reunião de equipe. Dr. Marcos Júlio, seu preceptor, relata que Vanessa nunca teve boa relação com os pais e saiu de casa cedo, passando a morar, aos 14 anos, na casa de Ubiratan, seu primeiro parceiro. Após alguns anos morando juntos, Vanessa engravidou e chegou a ser acompanhada pela UAPS no pré-natal, mas teve perda gravídica com aproximadamente 12 semanas de seguimento. Durante esse acompanhamento pré-natal, a equipe ficou ciente de que Vanessa vivia em contexto de violência doméstica, mas continuava vivendo com Ubiratan, porque não aceitava voltar para a casa dos pais. Por volta de seus 24 anos, Vanessa teve episódio de hemiplegia desproporcional em dimídio esquerdo, desvio de rima labial e disartria, enquanto trabalhava em uma casa como diarista. Foi levada à urgência e hospitalizada. Durante hospitalização, confirmou-se um infarto cerebral. A família de Vanessa possui histórico de AVCs em idades precoces: Vanusa apresentou episódio de AVC durante uma de suas gestações e dona Benzarina teria apresentado o primeiro AVC antes da menopausa. Segundo a Assistente Social do hospital em que Vanessa ficou internada por quase dois meses, Ubiratan nunca teria realizado uma visita, mas Edberto, um ex-namorado, foi companhia assídua. Após a alta hospitalar, Vanessa descobriu que Ubiratan estava vivendo com outra mulher e se mudou para casa de Edberto, que a acolheu, a despeito da não-aceitação do pai de Edberto, Seu Eduardo. Depois de seis anos morando juntos, Vanessa engravidou novamente, mas não procurou a UAPS. A ACS fazia visitas domiciliares na mesma rua em que Edberto e Vanessa moram, quando viu Vanessa, já com barriga gravídica, varrendo a calçada. Após breve conversa, a ACS agenda atendimento para Vanessa na UAPS.A revisão do prontuário de atendimentos prévios da Vanessa mostra que exames de pesquisa de anticoagulante lúpico e anticorpo anticardiolipina foram solicitados duas vezes, em intervalo maior que 12 semanas, com resultados persistentemente elevados.A partir das informações coletadas, assinale a alternativa com risco gestacional de Vanessa.
Evento trombótico + anticorpos antifosfolípides persistentes (>12 sem) = SAF (Alto Risco Gestacional).
A SAF é uma trombofilia autoimune definida por critérios clínicos (trombose ou morbidade gestacional) e laboratoriais persistentes, classificando a gestação como de alto risco.
A Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF) é a causa mais comum de trombofilia adquirida. No contexto obstétrico, a fisiopatologia envolve não apenas a trombose dos vasos placentários, mas também a interferência direta dos anticorpos na invasão trofoblástica e na sinalização inflamatória na interface materno-fetal. O reconhecimento da SAF no pré-natal é vital, pois transforma o prognóstico de uma gestação com alta taxa de perda em uma gestação com alta probabilidade de sucesso sob terapia anticoagulante e antiagregante adequada.
O diagnóstico requer a presença de pelo menos um critério laboratorial: Anticoagulante lúpico presente no plasma, Anticorpo anticardiolipina (IgG ou IgM) em títulos moderados a altos, ou Anticorpo anti-beta2-glicoproteína I (IgG ou IgM). Estes exames devem ser positivos em duas ou mais ocasiões, com pelo menos 12 semanas de intervalo, para confirmar a persistência e excluir positividade transitória por infecções.
A paciente apresenta critérios definitivos para SAF: critério clínico (AVC isquêmico prévio, caracterizando trombose arterial) e critérios laboratoriais (anticoagulante lúpico e anticardiolipina positivos em duas ocasiões com intervalo > 12 semanas). Na gestação, a SAF aumenta drasticamente o risco de perdas fetais, pré-eclâmpsia precoce, restrição de crescimento intrauterino e novos eventos trombóticos, exigindo acompanhamento especializado.
Para gestantes com SAF e antecedente de trombose (SAF trombótica), o tratamento padrão é a combinação de Aspirina em baixa dose (AAS) e Heparina (preferencialmente de baixo peso molecular - HBPM) em dose terapêutica ou profilática alta durante toda a gestação e puerpério. O objetivo é prevenir a trombose placentária e sistêmica, melhorando os desfechos materno-fetais.
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