CBO Teórica 2 - Prova de Especialidades da Oftalmologia — Prova 2021
Paciente de 30 anos, do sexo masculino, apresenta isquemia periférica da retina. Qual micro-organismo pode estar mais provavelmente implicado nesse quadro?
Isquemia periférica da retina em jovem + comportamento de risco → Pensar em Sífilis.
A sífilis é a 'grande simuladora' na oftalmologia; a vasculite oclusiva sifilítica pode levar a extensas áreas de isquemia periférica e neovascularização.
A incidência de sífilis tem aumentado globalmente, tornando a sífilis ocular um diagnóstico diferencial obrigatório em qualquer inflamação intraocular. A isquemia periférica é uma manifestação de vasculite oclusiva grave que pode levar à cegueira se não tratada sistemicamente. O diagnóstico baseia-se na propedêutica armada (angiografia fluoresceínica para mapear a isquemia) e, crucialmente, na sorologia. Todo paciente com diagnóstico de sífilis ocular deve ser submetido à punção lombar para avaliação do líquor e triagem para outras infecções sexualmente transmissíveis, especialmente o HIV, que pode modificar a apresentação clínica e a agressividade da doença.
O Treponema pallidum induz uma resposta inflamatória nas paredes dos vasos retinianos (vasculite), que pode ser tanto arterial quanto venosa. Essa inflamação leva à oclusão vascular e consequente hipóxia tecidual. A isquemia periférica resultante pode estimular a liberação de fatores angiogênicos (como VEGF), culminando em neovascularização da retina, hemorragia vítrea e descolamento de retina tracional, mimetizando doenças como a Doença de Eales ou Retinopatia Falciforme.
A sífilis ocular é considerada, para fins de tratamento, equivalente à neurossífilis. Portanto, o tratamento de escolha é a Penicilina G Potássica (Cristalina) endovenosa, na dose de 18 a 24 milhões de unidades por dia, administrada em doses divididas a cada 4 horas ou por infusão contínua, durante 10 a 14 dias. O uso de Penicilina Benzatina isolada é insuficiente para atingir níveis terapêuticos no humor aquoso e líquor.
A sífilis pode afetar qualquer estrutura ocular. Achados comuns incluem uveíte anterior granulomatosa, vitrite intensa ('névoa' vítrea), coriorretinite placoide posterior sifilítica (lesões amareladas grandes no polo posterior), neurite óptica e a clássica pupila de Argyll Robertson (acomodação preservada, mas sem reação à luz).
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo