INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2014
Um paciente com dois meses de idade foi atendido no Hospital apresentando há um mês coriza mucossanguinolenta e choro à mobilização do braço esquerdo. Nasceu a termo, com peso de 2 Kg, comprimento de 47 cm e perímetro cefálico de 34 cm. Ao exame físico a criança mostrava-se ativa e hidratada, chorava à manipulação do braço esquerdo e apresentava edema em porção proximal de úmero. Na ausculta cardiopulmonar, o murmúrio vesicular estava bem distribuído e as bulhas cardíacas eram rítmicas. No abdome palpava-se o fígado a 4 cm do rebordo costal direito e 4 cm do apêndice xifoide e o baço a 4 cm do rebordo costal esquerdo. Resultados de exames: • Hemoglobina = 9,5 g/dL (Valor de referência: 11,5 - 13,5 g/dL); • Hematócrito = 28% (Valor de referência: 34% - 40%); • Leucócitos = 8.000/ mm³ (Valor de referência: 5.500 - 14.500/mm³); • Segmentados = 43 %; • Linfócitos = 55%; • Monócitos = 2%; • Plaquetas = 155.000/mm³ (Valor de referência: 150.000 - 350.000/mm³); • Bilirrubina total = 1,5 mg/dL (Valor de referência: 0,3-1,2 mg/dL); • AST (TGO) = 11 U/L (Valor de referência: <35 U/L) e ALT (TGP) = 58 U/L (Valor de referência: <31 U/L). É solicitado internamento para investigação. A conduta adequada após a admissão é:
Coriza mucossanguinolenta + Hepatoesplenomegalia + Dor à manipulação (Parrot) = Sífilis Congênita.
O quadro de rinite persistente, visceromegalia e sinais de osteocondrite (pseudoparalisia de Parrot) em lactente jovem é patognomônico de sífilis congênita, exigindo investigação completa (líquor, ossos, sangue) e tratamento imediato.
A sífilis congênita continua sendo um grave problema de saúde pública. A transmissão vertical do *Treponema pallidum* pode ocorrer em qualquer fase da gestação. O caso clínico apresenta um lactente com baixo peso ao nascer e sintomas clássicos que surgiram após o período neonatal imediato, o que é típico da forma precoce. A coriza mucossanguinolenta é altamente sugestiva, pois o treponema causa ulceração da mucosa nasal. A hepatoesplenomegalia reflete a disseminação hematogênica e a resposta inflamatória sistêmica. O tratamento com Penicilina Cristalina é obrigatório quando há evidência clínica ou laboratorial de doença, visando prevenir sequelas tardias como a tríade de Hutchinson (ceratite intersticial, dentes de Hutchinson e surdez neurossensorial).
A pseudoparalisia de Parrot é uma manifestação da sífilis congênita precoce decorrente de uma osteocondrite dolorosa. A criança evita movimentar o membro afetado devido à dor intensa à mobilização, simulando uma paralisia motora. Radiograficamente, observa-se alterações nas metáfises dos ossos longos, como bandas metafisárias radiotransparentes ou o sinal de Wimberger (erosão da face medial da metáfise proximal da tíbia).
Os achados surgem nos primeiros dois anos de vida e incluem: rinite sifilítica (coriza mucossanguinolenta), hepatoesplenomegalia, linfadenopatia, lesões cutâneas (pênfigo palmo-plantar, condiloma plano), alterações ósseas (osteocondrite, periostite) e alterações hematológicas (anemia, trombocitopenia). O comprometimento do sistema nervoso central também é frequente, mesmo em pacientes assintomáticos.
A investigação deve ser completa: VDRL de sangue periférico (não do cordão), hemograma, radiografia de ossos longos, análise do líquido cefalorraquidiano (celularidade, proteína e VDRL), avaliação auditiva, visual e função hepática. O tratamento de escolha para casos com alterações clínicas ou laboratoriais é a Penicilina G Cristalina endovenosa por 10 dias, garantindo níveis terapêuticos no SNC.
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