Sepse Urinária e Choque Séptico: Diagnóstico e Conduta

IFF/Fiocruz - Instituto Fernandes Figueira (RJ) — Prova 2022

Enunciado

Uma paciente de 64 anos dá entrada na emergência com quadro de náuseas, vômitos, dor abdominal lombar direita, com punho percussão lombar positiva, redução no volume urinário, desorientação e febre. Ao exame físico: frequência cardíaca de 126 BPM, temperatura axilar de 38,8 °C, pressão arterial de 80 x 50 mmHg, frequência respiratória de 32 IRPM e saturação de oxigênio de 90% em ar ambiente. Exames complementares: Glicemia de 150 mg/dl, Hemoglobina de 11 g/dl, Leucometria global de 19.200/mm3, com diferencial de 0/0/0/1/15/54/20/10, Plaquetas de 165.000/mm3, Uréia de 80mg/dl, Creatinina de 1,6 mg/dl, EAS com nitrito positivo e 40 leucócitos/campo. Dentre as alternativas abaixo, assinale a mais adequada em relação ao diagnóstico e a conduta inicialmente  recomendada:

Alternativas

  1. A) sepse urinária, prova de hidratação venosa com cristalóides, coleta de culturas de urina e sangue e início de vancomicina;
  2. B) sepse urinária, prova de hidratação venosa com cristalóides, coleta de culturas de urina e sangue e início de ceftriaxona;
  3. C) sepse pulmonar, prova de hidratação venosa com cristalóides, coleta de culturas de urina e sangue e início de vancomicina;
  4. D) sepse pulmonar, prova de hidratação venosa com cristalóides, coleta de culturas de urina e sangue e início de ceftriaxona;
  5. E) sepse urinária, prova de hidratação venosa com colóides, coleta de culturas de urina e sangue e início de ceftriaxona.

Pérola Clínica

Sepse urinária com choque → Cristaloides 20 mL/kg, culturas (sangue/urina), Ceftriaxona empírica.

Resumo-Chave

A paciente apresenta um quadro de infecção urinária (punho percussão lombar positiva, EAS com nitrito e leucócitos) com sinais de disfunção orgânica e choque (hipotensão, taquicardia, taquipneia, desorientação, IRA, leucocitose). Isso configura sepse urinária com choque séptico. A conduta inicial é a ressuscitação volêmica com cristaloides, coleta de culturas antes do antibiótico e início de antibioticoterapia empírica de amplo espectro, sendo a ceftriaxona uma excelente escolha para cobrir os patógenos mais comuns em ITU complicada/sepse urinária.

Contexto Educacional

A sepse é uma disfunção orgânica com risco de vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção. Quando associada à hipotensão persistente que requer vasopressores após ressuscitação volêmica, configura-se choque séptico. A sepse urinária, decorrente de uma infecção do trato urinário (ITU) que progride para o sistema, é uma causa comum de sepse, especialmente em idosos e pacientes com comorbidades. A paciente do caso apresenta um quadro clássico de pielonefrite complicada evoluindo para choque séptico, evidenciado por febre, dor lombar, punho percussão positiva, disúria, desorientação, hipotensão, taquicardia, taquipneia, leucocitose e lesão renal aguda. O diagnóstico é clínico e laboratorial. Os critérios de sepse (disfunção orgânica) e choque séptico devem ser rapidamente identificados. A presença de nitrito positivo e leucócitos no EAS, juntamente com a leucocitose e desvio à esquerda, reforçam o foco urinário. A elevação da ureia e creatinina indica lesão renal aguda, uma das disfunções orgânicas comuns na sepse. A conduta inicial é crítica e deve seguir o 'pacote de sepse' das primeiras horas. O manejo inicial do choque séptico inclui a ressuscitação volêmica com cristaloides (soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato) na dose de 20-30 mL/kg nas primeiras 3 horas, visando restaurar a perfusão tecidual. Antes da administração de antibióticos, é imperativo coletar culturas de sangue e urina para identificar o patógeno e guiar a terapia antimicrobiana. A antibioticoterapia empírica deve ser iniciada o mais rápido possível (idealmente na primeira hora), com um agente de amplo espectro que cubra os patógenos mais prováveis para o foco da infecção. Para sepse urinária, a ceftriaxona é uma excelente escolha, cobrindo os principais Gram-negativos. A vancomicina, com seu espectro primário para Gram-positivos, não seria a primeira opção neste contexto. Coloides não são recomendados como primeira linha para ressuscitação volêmica na sepse.

Perguntas Frequentes

Quais são os critérios para o diagnóstico de sepse urinária com choque séptico?

O diagnóstico de sepse urinária com choque séptico requer a presença de uma infecção urinária confirmada ou suspeita (como pielonefrite) associada a disfunção orgânica (avaliada pelo escore SOFA ou qSOFA) e hipotensão persistente que necessita de vasopressores para manter uma PAM ≥ 65 mmHg, mesmo após ressuscitação volêmica adequada.

Qual a conduta inicial recomendada para um paciente com sepse urinária e choque?

A conduta inicial para sepse urinária com choque inclui a ressuscitação volêmica agressiva com cristaloides (20-30 mL/kg em 3 horas), coleta de culturas de urina e sangue antes da administração de antibióticos, e início imediato de antibioticoterapia empírica de amplo espectro, como a ceftriaxona, que cobre os principais patógenos Gram-negativos.

Por que a ceftriaxona é uma boa escolha para sepse urinária, e não a vancomicina?

A ceftriaxona é uma cefalosporina de terceira geração com excelente cobertura para bactérias Gram-negativas, que são os patógenos mais comuns em infecções do trato urinário complicadas e sepse urinária (ex: E. coli, Klebsiella). A vancomicina, por outro lado, tem espectro primariamente contra Gram-positivos (ex: S. aureus, Enterococcus) e não seria a escolha inicial adequada para uma sepse de foco urinário.

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