PUC-PR Saúde - Pontifícia Universidade Católica do Paraná — Prova 2025
Um paciente de 59 anos, obeso (IMC 31), apresenta dor torácica típica durante grandes esforços, que alivia com o repouso. Ele foi submetido a uma cintilografia de perfusão miocárdica que evidenciou isquemia moderada (5%) na parede lateral. Um cateterismo subsequente revelou placas calcificadas de 70% na artéria coronária direita e 80% na artéria circunflexa. O ecocardiograma mostrou fração de ejeção de 60%, sem hipertrofia ventricular ou disfunção valvar. \nSinais vitais: \n• Pressão arterial: 120/80 mmHg; \n• Frequência cardíaca: 105 bpm; \n• Frequência respiratória: 18 irpm; \n• Saturação de O2: 98% em ar ambiente; \n• Temperatura: 36,7°C. \nExames laboratoriais: \n• LDL: 160 mg/dL \n• HDL: 35 mg/dL (valor de referência: > 40 mg/dL); \n• Triglicerídeos: 220 mg/dl (valor de referência: < 150 mg/dL); \n• PCR: 8 mg/L (valor de referência: < 5 mg/L); \n• Creatinina: 1,0 mg/dL (valor de referência: 0,7 - 1,3 mg/dL); \n• Ureia: 35 mg/dl (valor de referência: 15 - 45 mg/dL); \n• Potássio: 4,5 mEq/L (valor de referência: 3,5 - 5,1 mEq/L); \n• Sódio: 138 mEq/L (valor de referência: 135 - 145 mEq/L). \nO paciente não está utilizando nenhum medicamento atualmente. O paciente pergunta se pode utilizar Semaglutida, acreditando que sua obesidade seja a principal causa de seus problemas de saúde. Qual seria a melhor orientação?
Semaglutida 2,4mg ↓ 20% de eventos CV em obesos com DAC estabelecida, mesmo SEM diabetes (Estudo SELECT).
A semaglutida demonstrou benefício inequívoco na redução de desfechos cardiovasculares maiores em pacientes com doença aterosclerótica e IMC ≥ 27, independentemente da glicemia.
A abordagem do paciente com Doença Arterial Coronariana (DAC) está evoluindo de uma visão focada apenas no lúmen vascular para uma visão metabólica sistêmica. A obesidade não é apenas um fator de risco, mas uma doença inflamatória crônica que acelera a aterogênese. A semaglutida, um análogo do receptor de GLP-1, atua reduzindo a gordura epicárdica e a inflamação vascular.\n\nNo caso clínico apresentado, o paciente possui alto risco residual (LDL fora da meta, PCR elevada, taquicardia sinusal e obesidade). A introdução da semaglutida, baseada nas evidências do SELECT, oferece uma proteção cardiovascular que vai além do que seria alcançado apenas com o manejo convencional. É fundamental que o médico residente compreenda que a indicação de GLP-1 para proteção CV expandiu-se oficialmente para o grupo de obesos não diabéticos com doença aterosclerótica.
O estudo SELECT (Semaglutide Effects on Cardiovascular Outcomes in People with Overweight or Obesity) foi um marco na cardiologia. Ele avaliou o uso de semaglutida 2,4 mg por semana em mais de 17.000 pacientes com doença cardiovascular estabelecida e IMC ≥ 27 kg/m², mas SEM diabetes. Os resultados mostraram uma redução de 20% no risco de eventos cardiovasculares maiores (MACE) — morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal — em comparação ao placebo, em um seguimento médio de 33 meses.
Embora a perda de peso contribua para a melhora metabólica, as curvas de benefício cardiovascular no estudo SELECT começaram a divergir muito precocemente, antes mesmo de uma perda ponderal significativa ser atingida. Isso sugere que a semaglutida possui efeitos pleiotrópicos diretos, como redução da inflamação sistêmica (redução de PCR), melhora da função endotelial e estabilização da placa aterosclerótica, além do controle de fatores de risco tradicionais.
Para um paciente como o do caso (59 anos, DAC multiarterial, obeso, IMC 31, LDL elevado e PCR aumentada), a semaglutida é uma excelente indicação. Ela atua na prevenção secundária, reduzindo a chance de novos eventos isquêmicos. Além disso, auxilia no controle da obesidade, que é um driver central para sua dislipidemia e estado inflamatório (evidenciado pela PCR de 8 mg/L). A medicação deve ser integrada ao tratamento padrão com estatinas e antiagregantes.
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