MedEvo Simulado — Prova 2026
Enzo, 28 anos, homem trans, comparece à Unidade Básica de Saúde (UBS) para consulta de rotina. Relata estar em uso de undecilato de testosterona há 2 anos, iniciado por conta própria com orientação de amigos, e apresenta amenorreia desde o primeiro semestre de uso. Mantém relações sexuais receptivas com parceiro cisgênero e não utiliza métodos contraceptivos, pois acredita que a hormonoterapia impede a gestação. Ao ser questionado sobre rastreamento oncológico, refere que realizou citopatológico de colo uterino apenas uma vez, aos 21 anos, e evita o exame por sentir forte desconforto e disforia relacionada aos órgãos genitais. Relata que sua mãe teve diagnóstico de câncer de mama aos 46 anos. Ao exame físico, apresenta voz grave, distribuição de pelos masculina, clitoromegalia e ausência de massas palpáveis em mamas. Considerando as diretrizes do Processo Transexualizador no SUS e os princípios da Medicina Preventiva, qual a conduta mais adequada?
Testosterona ≠ Contracepção. Homens trans com útero/ovários e parceiros cis precisam de contracepção eficaz.
A hormonoterapia androgênica causa amenorreia, mas não garante anovulação. O rastreamento oncológico deve seguir protocolos baseados nos órgãos presentes, respeitando a identidade de gênero.
O cuidado à saúde da população transgênero exige uma abordagem centrada na pessoa, integrando os princípios da Medicina de Família e Comunidade com as necessidades específicas do processo transexualizador. A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de entrada e deve ser capaz de realizar o manejo da hormonoterapia e o rastreamento preventivo, minimizando barreiras de acesso causadas pelo preconceito ou desconhecimento técnico. A manutenção do rastreamento de câncer de colo uterino em homens trans que possuem útero é um desafio clínico devido à disforia de gênero e às alterações citológicas induzidas pela testosterona. Da mesma forma, a desmistificação da testosterona como anticoncepcional é vital para prevenir gestações não planejadas, que podem ser extremamente traumáticas. O uso de métodos de longa duração (LARC) é frequentemente a melhor escolha para conciliar eficácia e conforto psicológico.
Não. Embora a testosterona frequentemente induza a amenorreia (ausência de menstruação) através da supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, ela não é um método contraceptivo confiável. A ovulação espontânea pode ocorrer mesmo em pacientes em uso regular de andrógenos. Portanto, homens trans que mantêm relações sexuais receptivas com parceiros que produzem espermatozoides devem ser orientados a utilizar métodos contraceptivos eficazes, como o DIU (cobre ou levonorgestrel) ou progestagênios isolados, que não interferem na hormonoterapia androgênica e garantem a segurança reprodutiva.
O uso prolongado de testosterona leva à atrofia do epitélio vaginal e cervical devido à privação estrogênica, o que pode tornar o exame citopatológico doloroso e aumentar a taxa de amostras insatisfatórias. Para mitigar isso, recomenda-se o uso de estrogênio tópico (creme ou óvulo) por 7 a 10 dias antes da coleta, o que melhora o trofismo tecidual sem causar efeitos sistêmicos significativos. Além disso, o acolhimento, o uso de espéculos menores e a discussão aberta sobre a disforia de gênero são fundamentais para garantir a adesão ao rastreamento oncológico.
O rastreamento de câncer de mama em homens trans depende da realização ou não da mastectomia masculinizadora. Para aqueles que não realizaram a cirurgia, as diretrizes seguem as mesmas recomendações para mulheres cisgênero (geralmente a partir dos 50 anos, ou antes se houver alto risco familiar). Para os que realizaram a mastectomia, o risco é drasticamente reduzido, mas não zero, e o rastreamento passa a ser baseado no exame físico anual do tecido remanescente e linfonodos, reservando exames de imagem apenas para achados anormais ou suspeitos.
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