MedEvo Simulado — Prova 2026
Tiago, 26 anos, homem trans, comparece à Unidade Básica de Saúde (UBS) para consulta de rotina com seu médico de família. Relata uso de testosterona injetável há cerca de um ano, estando em amenorreia desde o terceiro mês de uso. Refere parceria sexual estável com homem cisgênero, com uso irregular de preservativos. Questiona sobre a necessidade de método contraceptivo adicional e sobre a realização de rastreamento para câncer do colo do útero. Ao exame físico, apresenta genitália externa com clitoromegalia compatível com a hormonioterapia e refere incômodo importante com a ideia de realizar exames ginecológicos invasivos. Com base nos princípios da Atenção Primária e nas recomendações de saúde integral, qual é a conduta mais adequada?
Testosterona ≠ Contracepção; Homens trans com colo uterino devem manter rastreamento citopatológico.
A terapia com testosterona não garante anovulação; métodos contraceptivos não estrogênicos devem ser oferecidos e o rastreamento de câncer de colo deve seguir as diretrizes habituais.
O cuidado à saúde de pessoas trans na Atenção Primária exige competência cultural e técnica. Homens trans (pessoas designadas como mulheres ao nascer que se identificam como homens) mantêm necessidades de saúde preventiva relacionadas aos órgãos presentes, como útero, ovários e mamas (se não houver mastectomia masculinizadora). A abordagem deve focar na redução de danos e na autonomia, garantindo que a transição hormonal seja segura e que o rastreamento oncológico não seja negligenciado por barreiras institucionais ou preconceito.
Não. Embora a terapia de afirmação de gênero com testosterona frequentemente induza a amenorreia (ausência de menstruação) devido à supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, ela não é um método contraceptivo confiável. A ovulação pode ocorrer de forma esporádica mesmo em pacientes em amenorreia prolongada. Portanto, homens trans que mantêm relações sexuais com risco de concepção (parceiros cisgêneros masculinos ou outras pessoas que produzem espermatozoides) devem utilizar métodos contraceptivos adicionais se desejarem evitar a gravidez. O uso de testosterona durante a gestação é teratogênico, o que reforça a importância da contracepção eficaz.
Os métodos preferíveis são aqueles que não contêm estrogênio, para evitar interferência nos efeitos da terapia de afirmação de gênero (como a redistribuição de gordura e desenvolvimento de caracteres masculinos). As opções incluem o DIU de cobre, o DIU de levonorgestrel, implantes de progestogênio e injeções de progestogênio trimestrais. O DIU de levonorgestrel é frequentemente uma excelente escolha, pois além da alta eficácia contraceptiva, auxilia na manutenção da amenorreia e no controle de possíveis sangramentos de escape que podem causar disforia de gênero no paciente.
O rastreamento deve seguir as mesmas diretrizes e periodicidade recomendadas para mulheres cisgênero (no Brasil, dos 25 aos 64 anos, após início da atividade sexual). No entanto, o exame citopatológico pode ser desafiador devido à atrofia vaginal induzida pela testosterona (que aumenta o desconforto e a taxa de amostras insatisfatórias) e à disforia de gênero relacionada ao exame ginecológico. Estratégias para melhorar a adesão incluem o uso de espéculos menores, lubrificação adequada, uso prévio de estrogênio tópico (se não houver contraindicação) e, principalmente, a construção de um vínculo de confiança e respeito à identidade do paciente.
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