Reação Hansênica Tipo 2: Diagnóstico e Tratamento Urgente

SURCE - Sistema Único de Residência do Ceará — Prova 2023

Enunciado

Em seu turno de demanda espontânea na sua UBS, você atende Cleodécio, de 54 anos, que refere estar fazendo uma consulta de retorno. Ele relata que “o pé esquerdo está morto, o olho esquerdo está muito seco e há manchas na pele” e traz o resultado de um exame de baciloscopia de raspado intradérmico para pesquisa de BAAR que foi solicitado por outro médico. O resultado do exame é negativo. Em seu exame físico, apresenta face infiltrada e madarose. Há oito lesões papulares escuras, endurecidas, não dolorosas e não pruriginosas em tórax, dorso e membros inferiores. Em membro inferior esquerdo, você observa espessamento do nervo fibular comum. O exame dermatoneurológico mostra alteração de sensibilidade em face, região medial do antebraço à direita, região lateral da perna esquerda e dorso de pé esquerdo. A avaliação de funções motoras evidencia garra ulnar à direita e perda da dorsiflexão de pé esquerdo.Próximo de concluir a PQT-U iniciada, Cleodécio procura novo atendimento. Ele relata início súbito de febre, artralgia múltipla, queda de estado geral, nódulos e placas eritematosos difusos dolorosos. Ele refere também episódios de “sensação de dor em choque nos nervos”, parestesia difusa e piora aguda de função motora. Em breve revisão de prontuário, está registrado que Cleodécio não possui comorbidades cardiovasculares, nem endócrino-metabólicas. Qual é a principal hipótese diagnóstica e qual conduta terapêutica?

Alternativas

  1. A) Reação hansênica tipo 1. Não iniciar tratamento medicamentoso, mas encaminhar para centro de referência.
  2. B) Reação hansênica tipo 2. Iniciar tratamento medicamentoso com metilprednisolona EV e encaminhar para centro de referência.
  3. C) Reação hansênica tipo 1. Iniciar profilaxia para estrongilodíase, iniciar Prednisona 1mg/kg/dia, iniciar Amitriptilina 25mg/dia e aumento gradativo, se persistência de sintomas neurológicos. Encaminhar para centro de referência.
  4. D) Reação hansênica tipo 2. Iniciar profilaxia para estrongilodíase, iniciar Prednisona 1mg/kg/dia, iniciar Amitriptilina 25mg/dia, com aumento gradativo, se persistência de sintomas neurológicos. Encaminhar para centro de referência.

Pérola Clínica

Reação hansênica tipo 2 em PQT-U com sintomas sistêmicos e neurológicos agudos → Corticoide + profilaxia estrongiloidíase + amitriptilina.

Resumo-Chave

A reação hansênica tipo 2 (eritema nodoso hansênico) é uma complicação inflamatória aguda da hanseníase, comum durante ou após a poliquimioterapia, manifestando-se com nódulos cutâneos dolorosos, febre, artralgia e neurite aguda. O tratamento envolve corticosteroides sistêmicos, profilaxia para estrongiloidíase e manejo da dor neuropática com amitriptilina, além do encaminhamento para centro de referência.

Contexto Educacional

A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos. Durante o curso da doença ou, mais comumente, durante ou após a poliquimioterapia (PQT), os pacientes podem desenvolver reações hansênicas, que são episódios inflamatórios agudos. A reação hansênica tipo 2, ou eritema nodoso hansênico (ENH), é uma resposta imune mediada por complexos antígeno-anticorpo, mais frequente em formas multibacilares da doença. O reconhecimento e tratamento precoces são vitais para prevenir sequelas neurológicas permanentes. A fisiopatologia da reação tipo 2 envolve a deposição de imunocomplexos em diversos tecidos, desencadeando uma resposta inflamatória sistêmica. Clinicamente, manifesta-se por nódulos cutâneos eritematosos e dolorosos, febre, mal-estar, artralgia, e pode afetar órgãos como olhos (irite), testículos (orquite) e nervos (neurite aguda). A neurite é particularmente preocupante, pois a inflamação e o edema dos nervos podem levar a danos irreversíveis e perda de função. O diagnóstico é clínico, baseado na presença dos sintomas característicos em um paciente com hanseníase, especialmente durante ou após a PQT. O tratamento da reação hansênica tipo 2 visa controlar a inflamação e prevenir danos nervosos. A PQT deve ser mantida. O pilar do tratamento são os corticosteroides sistêmicos, como a Prednisona, em doses de 1mg/kg/dia, que devem ser iniciados após a profilaxia para estrongiloidíase. Para a dor neuropática, a Amitriptilina é uma opção eficaz, com doses crescentes conforme a tolerância. Em casos refratários, talidomida pode ser utilizada (com restrições devido à teratogenicidade). O encaminhamento para um centro de referência é crucial para o manejo especializado e acompanhamento das complicações, garantindo a melhor recuperação funcional e prevenindo incapacidades.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais sinais e sintomas da reação hansênica tipo 2?

A reação hansênica tipo 2, ou eritema nodoso hansênico, manifesta-se com nódulos e placas eritematosos dolorosos na pele, febre, artralgia, mal-estar geral, e pode cursar com neurite aguda, irite, orquite e linfadenopatia. Os sintomas são sistêmicos e agudos.

Qual a conduta terapêutica inicial para a reação hansênica tipo 2 com neurite?

A conduta inicial inclui a manutenção da poliquimioterapia, profilaxia para estrongiloidíase (com ivermectina ou tiabendazol) antes de iniciar Prednisona 1mg/kg/dia, e Amitriptilina 25mg/dia com aumento gradual para dor neuropática. O encaminhamento para um centro de referência é fundamental.

Por que é importante a profilaxia para estrongiloidíase antes de corticoides na hanseníase?

A profilaxia é crucial porque a imunossupressão causada pelos corticosteroides pode reativar uma infecção latente por Strongyloides stercoralis, levando à síndrome de hiperinfecção ou estrongiloidíase disseminada, que é uma condição grave e potencialmente fatal.

Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.

Responder questão no MedEvo