FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2024
Com relação à raquianestesia, assinale a alternativa correta:
Bupivacaína na raqui = longa duração (~3-5h); Lidocaína = curta duração (~1-2h).
A escolha do anestésico local na raquianestesia depende do tempo cirúrgico previsto. A bupivacaína é o padrão-ouro para procedimentos mais longos devido ao seu perfil farmacocinético.
A raquianestesia, ou bloqueio subaracnóideo, consiste na injeção de anestésico local no espaço onde circula o líquido cefalorraquidiano. É uma técnica de anestesia regional amplamente utilizada para cirurgias em abdome inferior, períneo e membros inferiores. A escolha do anestésico local é guiada pela duração esperada da cirurgia e pelo perfil de efeitos colaterais. A bupivacaína é o agente mais comum devido à sua longa duração e excelente bloqueio motor. A lidocaína, embora rápida, caiu em desuso para raqui devido à toxicidade nervosa. É fundamental entender que a raquianestesia exige a mesma monitorização padrão da anestesia geral (ECG, oximetria, pressão arterial não invasiva), pois as alterações hemodinâmicas podem ser rápidas e severas. Além disso, a sedação leve a moderada é frequentemente utilizada para garantir o conforto do paciente durante o posicionamento e o tempo cirúrgico, especialmente quando torniquetes são utilizados, pois a dor isquêmica pode ultrapassar o nível do bloqueio sensitivo.
A lidocaína e a bupivacaína são anestésicos locais com perfis farmacocinéticos distintos quando administrados no espaço subaracnóideo. A lidocaína é classificada como um agente de curta duração, proporcionando bloqueio sensitivo e motor por aproximadamente 60 a 90 minutos, sendo útil para procedimentos rápidos. No entanto, seu uso em raquianestesia tem diminuído devido à associação com a Síndrome de Sintomas Neurológicos Transitórios (TNS). Já a bupivacaína é um agente de longa duração, oferecendo anestesia por cerca de 3 a 5 horas, dependendo da dose e do uso de adjuvantes (como opioides). A bupivacaína é amplamente preferida para cirurgias ortopédicas e abdominais mais extensas devido à sua potência e duração prolongada, além de apresentar menor incidência de neurotoxicidade em comparação com a lidocaína.
Embora segura, a raquianestesia pode apresentar complicações. A mais comum é a hipotensão arterial, causada pelo bloqueio simpático que leva à vasodilatação periférica e redução do retorno venoso. Outra complicação clássica é a cefaleia pós-punção dural (CPPD), resultante do extravasamento de líquor pelo orifício da agulha na dura-máter, caracterizada por dor posicional. Complicações neurológicas, como a Síndrome da Cauda Equina ou hematoma espinhal, são extremamente raras, mas graves, exigindo diagnóstico e intervenção rápidos. Infecções como meningite ou abscessos também podem ocorrer se a técnica asséptica for falha. A retenção urinária é frequente no pós-operatório imediato devido ao bloqueio das fibras parassimpáticas sacrais, necessitando vigilância clínica e, por vezes, cateterismo vesical temporário.
O nível de dispersão cefálica do anestésico local no espaço subaracnóideo determina a extensão do bloqueio simpático. Quando o bloqueio atinge níveis torácicos altos (acima de T4), ocorre a denervação das fibras simpáticas cardíacas (nervos aceleradores), o que pode resultar não apenas em hipotensão por vasodilatação, mas também em bradicardia severa e redução da contratilidade miocárdica. Isso contrasta com a resposta compensatória usual de taquicardia frente à hipotensão. A dispersão é influenciada pela baricidade da solução (hiperbárica vs. isobárica), posição do paciente durante e após a punção, volume injetado e velocidade de injeção. O manejo envolve a reposição volêmica criteriosa e o uso de vasopressores, como efedrina ou fenilefrina, para manter a perfusão orgânica adequada.
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