UNAERP - Universidade de Ribeirão Preto (SP) — Prova 2023
Paciente M.R.T., sexo feminino, de 45 anos chega ao consultório referindo quadro de cefaleia crônica há pelo menos 4 anos, além de dor abdominal e de sensação de entalo na garganta recorrente. Diz ter consultado vários especialistas que lhe dizem que “ela não tem nada”. Traz consigo vários exames: TC de crânio, endoscopia digestiva alta, ultrassonografia abdominal total e de pescoço, todos normais. Seus exames laboratoriais de 3 meses atrás estão todos normais, exceto o colesterol total=278mg/dL. Diz também que gostaria de fazer outros exames, pois acredita que possa estar com alguma doença rara. No exame físico geral não há nenhuma alteração. Seu IMC = 28. Diante desse quadro qual a melhor abordagem, considerando que se trata da primeira consulta?
Queixas somáticas crônicas + exames normais → reforçar vínculo, validar sofrimento, plano de cuidados continuados.
Em pacientes com múltiplas queixas somáticas crônicas e exames complementares repetidamente normais, a melhor abordagem inicial é reforçar a relação médico-paciente, validar o sofrimento do paciente e estabelecer um plano de cuidados continuados. Isso evita a solicitação excessiva de exames desnecessários e o encaminhamento precoce sem um vínculo terapêutico sólido.
Pacientes que apresentam queixas somáticas crônicas, como cefaleia, dor abdominal e sensação de entalo, sem uma causa orgânica evidente após investigação clínica e laboratorial extensa, são um desafio comum na prática médica. Estima-se que até 20% das consultas médicas envolvam queixas somáticas inexplicadas. É crucial para o residente desenvolver habilidades para abordar esses pacientes de forma eficaz, evitando a iatrogenia e promovendo um cuidado centrado na pessoa. A abordagem inicial deve focar no estabelecimento de uma forte relação médico-paciente. O paciente frequentemente se sente incompreendido e desacreditado, tendo 'peregrinado' por diversos especialistas. É fundamental ouvir suas queixas com empatia, validar seu sofrimento e reconhecer que, mesmo sem uma doença orgânica detectável, a dor e o desconforto são reais. Evitar a solicitação indiscriminada de novos exames, que podem reforçar a crença em uma doença oculta e aumentar a ansiedade, é essencial. O plano de cuidados continuados é a melhor estratégia. Isso envolve agendamento de consultas regulares e mais curtas, focando na funcionalidade e na qualidade de vida, em vez de apenas na busca por um diagnóstico orgânico. O médico deve atuar como um coordenador do cuidado, explicando que o corpo e a mente estão interligados e que o tratamento pode envolver diferentes abordagens, incluindo mudanças no estilo de vida, manejo do estresse e, eventualmente, encaminhamento para psicoterapia, quando o vínculo estiver estabelecido e o paciente receptivo. O objetivo é ajudar o paciente a gerenciar seus sintomas e melhorar seu bem-estar geral, mesmo que a causa exata não seja identificada.
Na primeira consulta, é fundamental ouvir atentamente o paciente, validar seu sofrimento e suas queixas, mesmo que os exames sejam normais. Deve-se reforçar a relação médico-paciente, demonstrar empatia e explicar que, embora os exames não mostrem uma doença grave, o sofrimento é real e será abordado de forma contínua.
Um plano de cuidados continuados é crucial para estabelecer confiança e segurança. Ele sinaliza ao paciente que o médico está comprometido em acompanhá-lo a longo prazo, evitando a 'peregrinação' por múltiplos especialistas e exames. Permite uma abordagem gradual e integrada, focando na funcionalidade e bem-estar geral.
O encaminhamento deve ser considerado após o estabelecimento de uma relação de confiança e quando o paciente estiver receptivo. Não deve ser a primeira medida, nem ser apresentado como 'seu problema é psicológico'. Pode ser útil quando há comorbidades psiquiátricas claras ou quando a psicoterapia pode auxiliar no manejo dos sintomas e na compreensão da relação mente-corpo.
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