AMP - Associação Médica do Paraná — Prova 2025
Paciente masculino, 30 anos, é vítima de queimadura durante acendimento de churrasqueira. Dá entrada no pronto-socorro em ventilação ambiente, com queimaduras de espessura parcial superficial e profunda em face, mãos e antebraços bilateral e tórax anterior. Ao exame: encontra se lúcido, orientado, rouco e com fácies de dor. Dados vitais com FC: 124 bpm, PA: 130x80 mmHg, Sat. O2: 97%, FR: 20 mpm. Tórax com MV+ bilateral, com sibilos finos em ambos os lados. Em relação a este caso clínico, analise as assertivas abaixo classificando-as em Verdadeiro (V) ou Falso (F): ( ) A saturação adequada associada a ausculta pulmonar com poucas alterações significativas descartam a necessidade do estabelecimento de uma via aérea definitiva. ( ) A reanimação volêmica inicial deve ser realizada precocemente e o acesso venoso inicial de preferência para este paciente deve ser obtido através da dissecção da veia safena. ( ) A hidratação volêmica deste paciente deve ser realizada com soluções salinas hipertônicas pois diminuem a absorção líquida dos fluidos, diminuem o edema e aumentam o fluxo linfático. ( . ) Este paciente, por apresentar queimadura em mais de 10% da área de superfície corporal total, deve receber soro antitetânico. ( ) Este paciente desenvolverá, em 3 a 4 dias após a lesão, uma condição de hipermetabolismo caracterizada por taquicardia, maior débito cardíaco, elevação do gasto energético, aumento do consumo de oxigênio e proteólise e lipólise massivas.
Rouquidão + sibilos + queimadura facial → suspeita de lesão por inalação (via aérea!).
Sinais de lesão térmica de vias aéreas exigem proteção precoce da via aérea, independentemente da saturação de oxigênio inicial.
O atendimento ao grande queimado segue os preceitos do ATLS, priorizando a via aérea com proteção da coluna cervical. A lesão por inalação é uma das principais causas de morte precoce, decorrente da toxicidade química (monóxido de carbono, cianeto) e do dano térmico direto às vias aéreas superiores. A reanimação volêmica deve ser guiada pela fórmula de Parkland ou similares, utilizando preferencialmente Ringer Lactato. O uso de soluções hipertônicas é controverso e não é a conduta padrão inicial. O acesso venoso deve ser preferencialmente periférico em área não queimada; a dissecção de veia safena é uma medida de exceção. A compreensão da fase hipermetabólica é crucial para o suporte nutricional agressivo necessário para a sobrevida desses pacientes.
A via aérea definitiva (intubação orotraqueal) deve ser estabelecida precocemente na presença de sinais de lesão por inalação ou obstrução iminente. Os critérios incluem: estridor, rouquidão, uso de musculatura acessória, queimaduras circunferenciais de pescoço, edema importante de orofaringe ou queimaduras extensas (> 30-40% SCQ). A saturação de oxigênio normal não descarta a lesão, pois o edema de glote pode progredir rapidamente nas primeiras horas, tornando a intubação difícil ou impossível posteriormente.
Após o insulto térmico inicial, o paciente entra em uma fase de hipermetabolismo persistente que pode durar meses. Caracteriza-se por um estado hiperdinâmico com aumento do débito cardíaco, taquicardia, aumento do consumo de oxigênio e elevação da temperatura corporal basal. Fisiopatologicamente, ocorre uma liberação maciça de catecolaminas, cortisol e citocinas, levando a proteólise muscular e lipólise intensas para suprir a demanda energética da cicatrização e resposta inflamatória.
Queimaduras são consideradas feridas propensas ao tétano. Pacientes com queimaduras de espessura parcial ou total devem ter seu status vacinal verificado. Se a última dose foi há mais de 5 anos (ou status desconhecido), deve-se administrar o reforço vacinal (dT). O uso de soro antitetânico (SAT) ou imunoglobulina antitetânica humana (IGHAT) é reservado para pacientes com vacinação incompleta ou desconhecida em feridas de alto risco (como queimaduras > 10% da superfície corporal).
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