Manejo de Queimadura Ocular Química por Álcali (Cimento)

MedEvo Simulado — Prova 2026

Enunciado

Um operário de construção civil, de 30 anos, é admitido na unidade de pronto atendimento após a queda acidental de pó de cimento em seu olho direito há cerca de 20 minutos. Ele queixa-se de dor intensa, sensação de corpo estranho, fotofobia e dificuldade em manter a pálpebra aberta. Ao exame físico inicial, observa-se hiperemia conjuntival importante, blefaroespasmo e presença de resíduos esbranquiçados de cite nos fórnices conjuntivais. A acuidade visual está prejudicada pela dor. O pH conjuntival medido com fita reagente é de 11,5. O supervisor da obra, que acompanha o paciente, informa que trouxe um colírio anestésico e questiona se pode ser aplicado imediatamente para alívio da dor antes de qualquer outra medida. O centro de referência oftalmológica mais próximo fica a 45 minutos de distância. Diante deste quadro de trauma ocular químico por substância alcalina, a conduta imediata mais adequada é:

Alternativas

  1. A) Aplicar o colírio anestésico trazido pelo supervisor para permitir melhor abertura palpebral e, em seguida, encaminhar diretamente ao centro de referência para irrigação especializada.
  2. B) Realizar irrigação copiosa e imediata com soro fisiológico ou água corrente por pelo menos 30 minutos, removendo resíduos sólidos, e somente após estabilização do pH encaminhar ao especialista.
  3. C) Utilizar solução neutralizante com ácido bórico diluído para equilibrar o pH alcalino do cimento, evitando assim a progressão da lesão corneana durante o transporte.
  4. D) Administrar analgésico sistêmico, aplicar curativo oclusivo protetor e transferir imediatamente ao centro de referência, pois a manipulação local pode agravar a lesão química.

Pérola Clínica

Trauma químico ocular → Irrigação imediata e copiosa (soro/água) ANTES de qualquer transporte.

Resumo-Chave

Queimaduras por álcali (como cimento) causam necrose de liquefação e penetram profundamente; a irrigação imediata por 30 min é a medida mais determinante para o prognóstico visual.

Contexto Educacional

O trauma ocular químico é uma das poucas emergências oftalmológicas verdadeiras onde o tratamento deve preceder a avaliação detalhada da acuidade visual. O cimento é uma causa comum de queimadura alcalina na construção civil; ao entrar em contato com a lágrima, o óxido de cálcio transforma-se em hidróxido de cálcio, elevando drasticamente o pH. A fisiopatologia envolve a destruição das células-tronco do limbo, o que pode levar à conjuntivalização da córnea, opacificação e perda visual permanente. A conduta imediata no pronto atendimento baseia-se no tripé: anestesia tópica, remoção mecânica de detritos e irrigação exaustiva. O encaminhamento ao oftalmologista é obrigatório após a estabilização inicial para avaliação de isquemia limbar, prescrição de corticoides tópicos, ascorbato, citrato e antibióticos profiláticos, visando minimizar a inflamação e promover a reepitelização.

Perguntas Frequentes

Por que as queimaduras oculares por álcali são mais graves que as por ácido?

As substâncias alcalinas, como o cimento (óxido de cálcio) e a soda cáustica, são lipofílicas e provocam necrose de liquefação. Isso significa que elas saponificam os ácidos graxos das membranas celulares e destroem a matriz de proteoglicanos do estroma corneano, permitindo uma penetração rápida e profunda nos tecidos oculares e na câmara anterior. Já os ácidos tendem a causar necrose de coagulação, que cria uma barreira de proteínas precipitadas que limita a penetração adicional da substância. No caso do cimento, há o agravante de ser uma substância sólida que pode ficar retida nos fórnices conjuntivais, liberando álcali continuamente, o que exige eversão das pálpebras e limpeza mecânica rigorosa durante a irrigação.

Qual o protocolo correto de irrigação em trauma químico ocular?

A irrigação deve ser iniciada imediatamente no local do acidente ou na chegada ao pronto atendimento, sem aguardar a avaliação do especialista. Deve-se utilizar soro fisiológico 0,9%, Ringer Lactato ou, na falta destes, água corrente limpa. A irrigação deve ser copiosa (pelo menos 1 a 2 litros) e contínua por no mínimo 30 minutos. É fundamental o uso de colírio anestésico para vencer o blefaroespasmo e permitir a eversão das pálpebras superior e inferior para remoção de resíduos sólidos. O objetivo é a normalização do pH conjuntival (entre 7,0 e 7,4). O pH deve ser testado com fita reagente 15 a 30 minutos após a interrupção da irrigação para garantir que não haja rebote da alcalinidade por substâncias retidas nos tecidos.

Pode-se usar substâncias neutralizantes no trauma químico ocular?

Não. O uso de substâncias neutralizantes (como tentar usar um ácido fraco para neutralizar uma base) é contraindicado no manejo de emergência das queimaduras químicas oculares. A reação química de neutralização é exotérmica, ou seja, libera calor, o que pode causar uma lesão térmica adicional aos tecidos já fragilizados pela agressão química. Além disso, a tentativa de neutralização atrasa o início da irrigação mecânica, que é o método mais eficaz para diluir a substância e removê-la da superfície ocular. O foco deve ser exclusivamente na diluição e remoção mecânica através de irrigação volumosa com soluções isotônicas ou água.

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