Protocolo de Transfusão Maciça: Indicações e Critérios no Trauma

USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024

Enunciado

Mulher de 88 anos, vítima de queda de escada com altura estimada de 2 metros. Na sala de trauma, os sinais vitais e a avaliação inicial eram: PA: 72x58 mmHg, FC: 78 bpm, FR: 22 ipm com respiração paradoxal, SatO2 96%, e-FAST negativo, ECG: 4. Com relação ao ativamento do protocolo de transfusão maciça na sala de trauma:

Alternativas

  1. A) Há indicação devido ao valor do Shock Index e ABC score.
  2. B) Há indicação devido a hipotensão apresentada na avaliação inicial e mecanismo de trauma.
  3. C) Não há indicação sem os resultados dos exames laboratoriais point of care como o hemograma.
  4. D) Não há indicação devido à ausência de fonte de sangramento.

Pérola Clínica

MTP → Requer suspeita/confirmação de hemorragia grave; e-FAST negativo e sem fonte aparente contraindicam.

Resumo-Chave

A ativação do protocolo de transfusão maciça exige evidência ou suspeita clínica forte de sangramento ativo vultoso. No trauma geriátrico, a hipotensão sem fonte de sangramento deve levantar suspeitas de outras causas de choque.

Contexto Educacional

O manejo do choque no trauma exige a identificação rápida da etiologia. Embora a hemorragia seja a causa mais comum, o protocolo de transfusão maciça (MTP) é um recurso crítico que deve ser ativado apenas diante de sangramento massivo confirmado ou alta suspeição clínica (como no escore ABC ≥ 2). No paciente idoso, a apresentação clínica pode ser atípica; a hipotensão sem taquicardia compensatória (como visto na questão: FC 78 bpm) pode indicar uso de medicações ou choque neurogênico. A negatividade do e-FAST em um paciente instável deve levar o médico a considerar fontes de sangramento retroperitoneal, fraturas de pelve ou causas não hemorrágicas de choque, como o pneumotórax hipertensivo ou tamponamento cardíaco, antes de iniciar a transfusão de múltiplos hemoderivados.

Perguntas Frequentes

Quais os critérios do ABC Score?

O ABC Score (Assessment of Blood Consumption) é uma ferramenta preditiva para transfusão maciça baseada em quatro parâmetros: mecanismo de trauma penetrante, pressão arterial sistólica ≤ 90 mmHg, frequência cardíaca ≥ 120 bpm e e-FAST positivo. Cada item vale 1 ponto. Um escore ≥ 2 indica alta probabilidade de necessidade de transfusão maciça. No caso clínico apresentado, apesar da hipotensão, o e-FAST era negativo e o mecanismo era queda (contuso), resultando em um escore baixo, o que não justifica a ativação imediata do protocolo sem evidência de sangramento.

Por que a idade influencia a ativação do MTP?

Pacientes idosos possuem menor reserva fisiológica e frequentemente utilizam medicações como betabloqueadores ou anticoagulantes, o que pode mascarar sinais de choque ou exacerbar sangramentos. No entanto, a ativação do protocolo de transfusão maciça (MTP) deve ser criteriosa para evitar complicações como sobrecarga volêmica, lesão pulmonar aguda (TRALI) e distúrbios metabólicos. A ausência de uma fonte de sangramento identificável no e-FAST ou no exame físico torna a ativação do MTP precoce arriscada e potencialmente desnecessária, devendo-se buscar outras causas para a instabilidade hemodinâmica.

Qual a diferença entre Shock Index e ABC Score?

O Shock Index (SI) é a razão entre a frequência cardíaca e a pressão arterial sistólica (FC/PAS), sendo um marcador precoce de choque oculto quando > 0.9. Já o ABC Score é uma ferramenta específica para predizer a necessidade de transfusão maciça no trauma. Enquanto o SI avalia o estado hemodinâmico geral, o ABC Score foca na probabilidade de hemorragia maciça. No trauma, ambos são complementares, mas a decisão de transfundir grandes volumes deve sempre considerar a presença de uma fonte hemorrágica ativa, seja ela cavitária ou externa.

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