HVC - Hospital Vera Cruz (SP) — Prova 2024
Subjetivo: homem de 52 anos de idade busca atendimento médico por dor no estômago e refluxo há cerca de 2 anos. A dor é pior após as refeições e melhora ao tomar um copo de água gelada. Não percebeu mudanças no peso. Não tem febre ou outros sintomas associados. Faz tratamento para hipertensão arterial sistêmica (HAS) há 15 anos, com bom controle com losartana. Trabalha como porteiro de um prédio e às vezes toma medicação para aliviar a dor nas costas por passar longos períodos sentado, porém não sabe o nome do medicamento. É casado há 30 anos. Mora com a esposa e um filho, de 25 anos de idade, que é usuário de álcool e ""dá muito trabalho"". Quer fazer endoscopia, pois está preocupado com a dor. Acha que não é grave, mas tem medo de câncer no estômago, pois um colega do trabalho recebeu esse diagnóstico recentemente. Objetivo: bom estado geral, corado, hidratado, anictérico, eupneico, afebril. Pressão arterial de 138x75mmHg. Exame cardiopulmonar está normal. Exame abdominal com ruídos hidroaéreos presentes e discretamente aumentados, timpânico à percussão, sem sinais de ascite, levemente doloroso à palpação de epigástrio, sem massas ou visceromegalias palpáveis. Avaliação: dispepsia (D07); Medo de câncer no aparelho digestivo (D26); HAS sem complicações (K86); Filho com dependência química - Problema por doença familiar (222). Plano: Oriento evitar longos períodos em jejum, fazer dieta fracionada e evitar alimentos que pioram os sintomas. Solicito trazer medicamento que usa para dor nas costas na próxima consulta. Prescrevo teste terapêutico com inibidor de bomba de prótons por 30 dias. Tomar um comprimido em jejum, trinta minutos antes da primeira refeição. Tranquilizo quanto à ausência de indicações para endoscopia digestiva alta neste momento, por ausência de sinais de alarme. Solicitar se os sintomas persistirem após investigação e terapêutica otimizadas. Mantenho Losartana. Abordar relação com o filho em consulta de retorno. Considerando o atendimento descrito, assinale o conceito que justifica corretamente o fato de o médico não solicitar a endoscopia digestiva alta neste momento:
Ausência de sinais de alarme em dispepsia → Teste terapêutico (IBP) = Prevenção Quaternária.
A prevenção quaternária visa proteger o paciente de intervenções médicas desnecessárias e potencialmente danosas, priorizando a clínica sobre exames complementares sem indicação.
A abordagem da dispepsia na Atenção Primária à Saúde baseia-se na alta prevalência de causas funcionais e no baixo rendimento diagnóstico da endoscopia em pacientes sem sinais de alarme. O conceito de prevenção quaternária, introduzido por Marc Jamoulle, é essencial para a sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança do paciente. Ao optar pelo teste terapêutico e orientações dietéticas em um paciente de 52 anos sem sinais de alerta e com uso provável de AINEs, o médico evita o risco de biópsias desnecessárias e o estresse de um diagnóstico falso-positivo ou irrelevante.
A prevenção quaternária é o conjunto de ações que visam identificar pacientes em risco de excesso de intervenções médicas (overmedicalization), protegendo-os de procedimentos desnecessários e iatrogenias. No caso da dispepsia, isso se traduz em não solicitar exames invasivos, como a endoscopia, quando a probabilidade de doença grave é baixa e o paciente não apresenta sinais de alarme, evitando custos e riscos procedimentais.
Os principais sinais de alarme que justificam a solicitação imediata de EDA em pacientes dispépticos incluem: perda de peso não intencional, disfagia progressiva, odinofagia, vômitos persistentes, evidência de sangramento gastrointestinal (melena ou hematêmese), anemia ferropriva inexplicada, massa palpável em epigástrio e início de sintomas em pacientes acima de 50-55 anos.
Para pacientes jovens sem sinais de alarme, a conduta inicial recomendada é o teste terapêutico com Inibidores de Bomba de Prótons (IBP) por 4 a 8 semanas. Se houver melhora clínica, confirma-se a hipótese de dispepsia funcional ou doença do refluxo. A investigação invasiva só é indicada se houver falha no tratamento medicamentoso ou surgimento de sinais de alerta durante o seguimento.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo