Prevenção Quaternária: Evitando Iatrogenia na Prática Clínica

SMS Florianópolis - Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis (SC) — Prova 2021

Enunciado

Sr. Crisanto, 55 anos, segurança de empresa de valores, hipertenso, faz uso de hidroclorotiazida 25 mg uma vez por dia e losartana 50 mg duas vezes por dia. Tem índice de massa corporal (IMC) de 31,2 kg/m², sem outros problemas de saúde. Não tem história de tabagismo ou etilismo, é divorciado e eventualmente tem relações sexuais desprotegidas. Vem assintomático à consulta, querendo realizar todos os exames possíveis, pois um colega de trabalho tinha acabado de infartar. Ao exame físico, pressão arterial (PA)118 x 76 mmHg, ausculta cardiovascular e respiratória sem alterações. Últimos exames laboratoriais foram de dois meses atrás e mostravam glicemia de jejum = 98 mg/dl, colesterol total = 143 mg/dl, HDL = 56 mg/dl, potássio sérico: 4,4, triglicerídeos: 123 mg/dl, parcial de urina e hemograma sem alterações. Escore de Risco de Framingham: 7,89% em 10 anos. Considerando o caso do Sr. Crisanto é correto afirmar que:

Alternativas

  1. A) Por ser hipertenso e obeso grau I, estaria bem indicado o uso diário de estatina em dose baixa, por exemplo sinvastatina 20 mg com uma tomada à noite.
  2. B) Deve-se realizar aconselhamento sobre o uso de preservativos nas relações sexuais, mas realizar testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis não estaria indicado, pois geraria uma preocupação adicional na consulta.
  3. C) Para realizar a prevenção quaternária é importante estreitar a relação médico-paciente e entender o contexto do Sr. Crisanto, perguntando sobre o trabalho e como ele se sente em relação à morte do colega, por exemplo.
  4. D) Estaria bem indicado avaliar a presença de sintomas urinários através do International Prostate Symptom Score (IPSS) para rastreio de câncer de próstata, mas não solicitar exame de PSA ou realizar toque retal como forma de tranquilizar o paciente.

Pérola Clínica

Prevenção quaternária = evitar iatrogenia por intervenções desnecessárias, focando na relação médico-paciente.

Resumo-Chave

A prevenção quaternária visa proteger os pacientes de intervenções médicas desnecessárias ou excessivas que possam causar danos. No caso do Sr. Crisanto, a ansiedade gerada pelo infarto do colega pode levar a uma demanda por exames excessivos, sendo crucial a abordagem empática e a compreensão do contexto psicossocial para evitar iatrogenia.

Contexto Educacional

A prevenção quaternária é um conceito emergente e crucial na medicina contemporânea, especialmente na atenção primária. Ela se refere às ações que visam identificar o paciente em risco de iatrogenia por intervenções médicas desnecessárias ou excessivas e protegê-lo de novas intervenções médicas. No caso do Sr. Crisanto, a ansiedade desencadeada pelo infarto de um colega o leva a buscar 'todos os exames possíveis', o que representa um cenário clássico para a aplicação da prevenção quaternária. A fisiopatologia aqui não é da doença, mas da 'medicalização' e da 'ansiedade da saúde'. O diagnóstico da necessidade de prevenção quaternária envolve uma escuta ativa e empática, compreendendo o contexto psicossocial do paciente, suas preocupações e medos. O Escore de Risco de Framingham do Sr. Crisanto (7,89%) indica um risco moderado, e seus exames laboratoriais estão controlados, o que sugere que uma bateria de exames adicionais pode não ser clinicamente justificada no momento. O tratamento, neste contexto, é a própria relação médico-paciente. É fundamental estreitar essa relação, validar os sentimentos do paciente e educá-lo sobre os riscos e benefícios de exames e intervenções, evitando a cascata de exames e procedimentos que podem levar a resultados falso-positivos, ansiedade e até danos físicos. A prevenção quaternária é uma ferramenta poderosa para promover uma medicina mais centrada no paciente e menos intervencionista quando não há real necessidade.

Perguntas Frequentes

O que diferencia a prevenção quaternária das outras prevenções?

Enquanto as prevenções primária, secundária e terciária focam em evitar a doença, diagnosticar precocemente e reabilitar, respectivamente, a prevenção quaternária visa proteger o paciente de intervenções médicas excessivas ou desnecessárias.

Como o médico pode aplicar a prevenção quaternária na prática?

O médico deve praticar a escuta ativa, entender as preocupações do paciente, explicar os riscos e benefícios de exames e tratamentos, e evitar a medicalização de problemas que não são doenças, fortalecendo a relação de confiança.

Quais são os riscos de um rastreamento excessivo em pacientes assintomáticos?

O rastreamento excessivo pode levar a resultados falso-positivos, ansiedade desnecessária, exames complementares invasivos, sobrediagnóstico e sobretratamento, com potenciais danos físicos e psicológicos ao paciente.

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