SUS-SP - Sistema Único de Saúde de São Paulo — Prova 2026
Um homem de 27 anos é encaminhado à sala de emergência após colisão de carro contra poste, em alta velocidade. Apresenta-se agitado, com fala desconexa e entrecortada. A equipe préhospitalar refere que observou equimose periorbital e um grande ferimento, com exposição óssea, no membro inferior esquerdo. A frequência respiratória é de 35 irpm, frequência cardíaca de 138 bpm, PA: 80x50 mmHg, saturação de oxigênio de 85% em ar ambiente. À inspeção inicial, observou-se turgência jugular com desvio traqueal para a direita. Assimetria torácica às custas de hiperdistensão do hemitórax esquerdo e murmúrio vesicular abolido nessa região. O cirurgião realiza punção de alívio no segundo espaço intercostal à esquerda. Com base no cenário descrito e nos princípios do atendimento inicial ao trauma, avalie a conduta do cirurgião:
Turgência jugular + Desvio traqueal + Hipotensão = Pneumotórax Hipertensivo.
O pneumotórax hipertensivo é uma emergência clínica onde o ar entra no espaço pleural mas não sai, causando colapso pulmonar e choque obstrutivo; o tratamento deve preceder o raio-X.
No atendimento inicial ao trauma seguindo o protocolo ABCDE, o pneumotórax hipertensivo é classificado no componente 'B' (Breathing). É uma das causas de morte evitável mais críticas no trauma torácico. O diagnóstico é puramente clínico, baseado na tríade de hipotensão, turgência jugular e ausência de murmúrio vesicular unilateral com hipertimpanismo à percussão. A agitação e fala desconexa do paciente no caso sugerem hipóxia e hipoperfusão cerebral decorrentes do choque obstrutivo, e não necessariamente um trauma cranioencefálico primário. A conduta imediata é a descompressão (por agulha ou digital), que transforma o pneumotórax hipertensivo em um pneumotórax simples, aliviando a pressão sobre o mediastino. Após a estabilização inicial, é obrigatória a realização da drenagem torácica fechada em selo d'água como tratamento definitivo.
Tradicionalmente, a punção de alívio era ensinada no 2º espaço intercostal na linha hemiclavicular. No entanto, o ATLS 10ª edição recomenda preferencialmente o 4º ou 5º espaço intercostal, entre a linha axilar anterior e média (mesmo local da drenagem de tórax definitiva), devido à maior espessura da parede torácica em muitos pacientes, o que pode tornar a agulha no 2º espaço ineficaz. Em crianças, o 2º espaço ainda é amplamente aceito. A descompressão digital (toracostomia digital) também é uma alternativa rápida e eficaz no ambiente hospitalar antes da inserção do dreno.
O acúmulo de ar sob pressão no espaço pleural causa o desvio do mediastino para o lado oposto. Isso comprime as veias cavas (superior e inferior), reduzindo drasticamente o retorno venoso ao coração direito. A consequência é uma queda acentuada no débito cardíaco, caracterizando um choque do tipo obstrutivo. Sem a descompressão imediata, a redução da pré-carga leva rapidamente à atividade elétrica sem pulso (AESP) e óbito. É uma das poucas causas de choque no trauma que não se resolve com volume, mas sim com a liberação da pressão intratorácica.
No pneumotórax simples, há ar na cavidade pleural, mas sem pressão positiva progressiva; o paciente costuma estar estável hemodinamicamente e o diagnóstico pode ser feito por imagem. No pneumotórax hipertensivo, existe um mecanismo de válvula unidirecional: o ar entra na inspiração e fica retido. Isso gera sinais de instabilidade crítica: hipotensão, turgência jugular, desvio de traqueia e desconforto respiratório grave com murmúrio abolido e hipertimpanismo. O hipertensivo é uma emergência de tratamento imediato ('B' do ABCDE), enquanto o simples pode aguardar o 'D' ou a avaliação secundária.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo