FAMERP/HB - Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto - Hospital de Base (SP) — Prova 2025
Lactente, sexo masculino, 4 meses, em consulta de rotina com o pediatra, mãe queixa que a crianças apresenta cansaço nas mamadas. Ao exame físico: bom estado geral, saturação arterial 98%, emagrecido, peso 3,2 kg, cardiológico bulhas normofonéticas em2 tempos, sopro continuo 3+6+ em borda esternal esquerda alta com irradiação para dorso. Qual sua principal hipótese diagnóstica:
Sopro contínuo em maquinaria (Gibson) + cansaço às mamadas → Persistência do Ducto Arterial (PDA).
A Persistência do Ducto Arterial (PDA) resulta em shunt esquerda-direita, causando hiperfluxo pulmonar e sobrecarga de câmaras esquerdas, manifestando-se clinicamente por sopro contínuo e sinais de insuficiência cardíaca no lactente.
A Persistência do Ducto Arterial é uma das cardiopatias congênitas mais comuns, especialmente em prematuros. O quadro clínico varia desde assintomático em pequenos defeitos até insuficiência cardíaca grave em grandes shunts. O diagnóstico é essencialmente clínico, corroborado pelo ecocardiograma com Doppler, que define a anatomia e a magnitude do shunt. A identificação precoce em lactentes com déficit de crescimento é crucial para evitar complicações como a hipertensão pulmonar fixa (Síndrome de Eisenmenger).
A fisiopatologia da PDA envolve a falha no fechamento funcional e anatômico do canal arterial após o nascimento. Em condições normais, o aumento da PaO2 e a queda das prostaglandinas levam à constrição do ducto. Quando persiste, ocorre um shunt da aorta (maior pressão) para a artéria pulmonar (menor pressão) durante todo o ciclo cardíaco (sístole e diástole), o que explica o sopro contínuo. Esse hiperfluxo pulmonar aumenta o retorno venoso para o átrio e ventrículo esquerdos, levando à dilatação dessas câmaras e, eventualmente, a sintomas de insuficiência cardíaca congestiva, como taquipneia e dificuldade de ganho ponderal.
O sopro clássico da PDA é descrito como contínuo, 'em maquinaria' ou sopro de Gibson. Ele é melhor audível na borda esternal esquerda alta (segundo espaço intercostal esquerdo) e frequentemente se irradia para o dorso ou região infraclavicular esquerda. Por ocorrer tanto na sístole quanto na diástole (devido ao gradiente de pressão persistente entre a aorta e a artéria pulmonar), ele não possui hiato entre as bulhas. Em casos de grandes shunts, pode haver também um ruído diastólico mitral por hiperfluxo e pulsos arteriais amplos (pedalantes) devido ao 'roubo' de fluxo da aorta para a pulmonar na diástole.
O tratamento depende da repercussão clínica e da idade do paciente. Em prematuros, pode-se tentar o fechamento farmacológico com inibidores da ciclooxigenase (Indometacina ou Ibuprofeno). Em lactentes a termo com repercussão hemodinâmica (como o caso da questão, com baixo ganho de peso e cansaço), o tratamento definitivo é indicado. Atualmente, o fechamento percutâneo por dispositivos (molas ou oclusores) é a primeira escolha para a maioria das crianças acima de 5-6 kg. A ligadura cirúrgica fica reservada para casos onde a intervenção percutânea não é tecnicamente viável ou em prematuros extremos que falharam ao tratamento medicamentoso.
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