Peritonite Bacteriana em Cirrose: Diagnóstico e Manejo Diferenciado

UEPA - Universidade do Estado do Pará - Belém — Prova 2021

Enunciado

Uma mulher de 52 anos de idade é admitida no hospital queixando-se de dor abdominal aguda e febre alta nos últimos 3 dias. Tem antecedente de cirrose por hepatite C. Nega cefaleia e sintomas respiratórios. No exame físico está febril (38ºC), pulso com 110 batimentos/minuto, pressão arterial de 100/60 mmHg, frequência respiratória de 16 respirações/minuto e saturação de oxigênio de 98% em ar ambiente. Os pulmões estão limpos. O abdome está difusamente doloroso, ruídos hidroaéreos reduzidos e ligeira descompressão brusca positiva. Os exames laboratoriais revelam: leucócitos de 12.300/mm3, com 89% de neutrófilos, hematócrito de 31% e contagem de plaquetas de 58.000/mm3. A paracentese revela 700 neutrófilos, proteína total 1.1g/dL, glicose de 30mg/dl desidrogenase láctica (LDH) mais elevada que a LDH sérica. A coloração de Gram mostra bacilos Gram negativos, cocos Gram positivos em cadeias e bacilos Gram positivos e formas de leveduras. Todas as seguintes condutas estão indicadas, EXCETO:

Alternativas

  1. A) Reposição volêmica com soluções cristaloides.
  2. B) Antibioticoterapia empírica de amplo espectro.
  3. C) Parecer cirúrgico.
  4. D) Radiografia do tórax.
  5. E) Terlipressina.

Pérola Clínica

PBE polimicrobiana com sinais de peritonite secundária (LDH ↑, glicose ↓, múltiplos germes) → reposição volêmica, ATB amplo, parecer cirúrgico. Terlipressina não indicada.

Resumo-Chave

A paciente apresenta quadro de peritonite bacteriana, com achados de paracentese (neutrófilos > 250/mm³, glicose baixa, LDH alta) e coloração de Gram polimicrobiana, sugerindo peritonite secundária. Reposição volêmica e antibióticos de amplo espectro são essenciais. O parecer cirúrgico é mandatório para investigar a fonte. Terlipressina é para sangramento de varizes esofágicas, não para peritonite.

Contexto Educacional

Pacientes com cirrose hepática e ascite são altamente suscetíveis a infecções, sendo a peritonite bacteriana espontânea (PBE) uma das complicações mais graves. A PBE é uma infecção do líquido ascítico sem uma fonte intra-abdominal cirurgicamente tratável, geralmente causada por um único tipo de bactéria. No entanto, é crucial diferenciar a PBE da peritonite bacteriana secundária, que é uma infecção do líquido ascítico resultante de uma perfuração ou inflamação de uma víscera abdominal. O caso clínico apresenta uma paciente cirrótica com dor abdominal, febre e achados laboratoriais que sugerem uma infecção grave. A paracentese é fundamental para o diagnóstico. A contagem de neutrófilos > 250/mm³ no líquido ascítico confirma a peritonite bacteriana. Contudo, a presença de múltiplos organismos na coloração de Gram, glicose baixa (< 50 mg/dL) e LDH elevada no líquido ascítico, especialmente se maior que a LDH sérica, são fortes indicadores de peritonite secundária, que exige uma abordagem diferente da PBE. As condutas iniciais para qualquer peritonite bacteriana em cirróticos incluem reposição volêmica e antibioticoterapia empírica de amplo espectro. No entanto, diante da suspeita de peritonite secundária, o parecer cirúrgico é mandatório para identificar e tratar a fonte da infecção (ex: perfuração intestinal). A terlipressina, por outro lado, é um vasoconstritor esplâncnico utilizado primariamente no manejo da síndrome hepatorrenal e no sangramento de varizes esofágicas, não tendo indicação no tratamento da peritonite bacteriana.

Perguntas Frequentes

Quais os critérios diagnósticos para peritonite bacteriana espontânea (PBE)?

O diagnóstico de PBE é feito pela paracentese com contagem de neutrófilos no líquido ascítico > 250 células/mm³, na ausência de uma fonte cirúrgica de infecção intra-abdominal.

Como diferenciar PBE de peritonite bacteriana secundária?

A peritonite secundária é sugerida por contagem de neutrófilos muito elevada (>1000/mm³), múltiplos organismos na coloração de Gram, glicose baixa (<50 mg/dL) e LDH alta no líquido ascítico, além de proteína total > 1 g/dL.

Qual a indicação da terlipressina em pacientes cirróticos?

A terlipressina é um análogo da vasopressina indicado principalmente no tratamento da síndrome hepatorrenal e no sangramento agudo por varizes esofágicas, não tendo papel direto no manejo da peritonite bacteriana.

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