UNIFESO/HCTCO - Hospital das Clínicas de Teresópolis Costantino Ottaviano (RJ) — Prova 2024
J. A. S, 18 anos, é trazida por sua mãe proveniente de seu domicílio. Estava sudoreica, taquicárdica, com dor torácica ventilatório dependente há cerca de 6 dias. Foi realizado eletrocardiograma que identificou supradesnivelamento difuso do segmento ST, com supra desnivelamento de segmento PR em V1 e AVR. Em relação à hipótese mais provável para o caso acima, qual o melhor tratamento dentre os listados abaixo?
Dor pleurítica + Supra ST difuso côncavo + Infra PR (exceto aVR/V1) = Pericardite Aguda → AINE + Colchicina.
A pericardite aguda apresenta-se com dor torácica que melhora com a inclinação do tronco para frente e alterações eletrocardiográficas difusas; o tratamento baseia-se em anti-inflamatórios e colchicina.
A pericardite aguda é uma inflamação do pericárdio, frequentemente de etiologia viral ou idiopática em pacientes jovens. O quadro clínico clássico envolve dor torácica retroesternal, de caráter pleurítico, que piora em decúbito dorsal e melhora na posição sentada com inclinação do tronco para frente (posição prece maometana). O atrito pericárdico à ausculta é um achado patognomônico, embora transiente. O diagnóstico é firmado pela presença de pelo menos dois dos quatro critérios: dor típica, atrito pericárdico, alterações eletrocardiográficas sugestivas (supra ST difuso/infra PR) e derrame pericárdico novo ou piorado. O tratamento visa o controle da inflamação e dor, utilizando-se AINEs em doses elevadas (ex: Ibuprofeno 600-800mg 8/8h) associados à colchicina. Corticoides devem ser evitados na fase inicial, pois estão associados a um maior risco de cronificação e recorrência, sendo reservados para casos específicos como doenças autoimunes ou contraindicação aos AINEs.
O ECG na pericardite aguda evolui classicamente em quatro estágios. O Estágio 1 (agudo) caracteriza-se por supradesnivelamento difuso do segmento ST com concavidade voltada para cima e infradesnivelamento do segmento PR (sinal muito específico), exceto em aVR e V1, onde ocorre o oposto (supra de PR e infra de ST). O Estágio 2 apresenta a normalização do ST e PR. O Estágio 3 é marcado pela inversão generalizada da onda T. Por fim, o Estágio 4 demonstra a normalização completa do traçado. Nem todos os pacientes passam por todas as fases, mas o supra de ST difuso é o achado mais característico na emergência.
A associação da colchicina ao tratamento com AINEs (como Ibuprofeno ou Aspirina) é recomendada pelas diretrizes atuais (ESC/SBC) para o primeiro episódio de pericardite aguda. Estudos demonstraram que a colchicina, em doses baixas (0,5mg a 1mg/dia), aumenta a taxa de resposta ao tratamento, acelera a resolução dos sintomas e, mais importante, reduz significativamente o risco de recorrência (pericardite recorrente), que é uma das complicações mais frustrantes da doença. O tratamento com AINE deve ser mantido por 1-2 semanas com desmame gradual, enquanto a colchicina é mantida por 3 meses.
O tamponamento cardíaco é uma complicação grave da pericardite aguda devido ao acúmulo de líquido no espaço pericárdico sob pressão. Deve-se suspeitar clinicamente quando o paciente apresenta a Tríade de Beck: hipotensão arterial, abafamento de bulhas cardíacas e turgência jugular patológica. Outros sinais incluem o pulso paradoxal (queda >10 mmHg na PAS durante a inspiração) e taquicardia compensatória. No ECG, pode-se observar a alternância elétrica (variação da amplitude do complexo QRS). Diante dessa suspeita, o ecocardiograma é o exame de escolha imediato e a conduta é a pericardiocentese de emergência.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo