Santa Casa de Ribeirão Preto (SP) — Prova 2026
Um paciente de 65 anos realiza uma colonoscopia de rastreamento após preparo intestinal domiciliar. Durante o procedimento, um pólipo séssil pequeno é ressecado no sigmoide. O exame é considerado tecnicamente difícil, necessitando de insuflações repetidas para uma visualização adequada. No entanto, não houve complicação notada durante o procedimento. Após o procedimento, o paciente relata dor abdominal leve e difusa. Uma tomografia computadorizada de abdome e pelve é solicitada e revela bolhas de ar livre intraperitoneal próximas ao cólon direito, mas sem líquido livre associado. O paciente permanece clinicamente estável, sem febre ou sinais de irritação peritoneal. Qual é a conduta inicial mais apropriada para este caso?
Pneumoperitônio sem peritonite pós-colonoscopia → Manejo conservador (Jejum + ATB + Observação).
Pequenas perfurações ou barotrauma durante a colonoscopia podem causar pneumoperitônio. Se o paciente estiver estável e sem sinais de irritação peritoneal, a cirurgia pode ser evitada com tratamento clínico.
A perfuração é uma complicação rara, mas grave, da colonoscopia, ocorrendo em aproximadamente 0,1% dos procedimentos diagnósticos e até 1% das intervenções terapêuticas como polipectomias. O mecanismo pode ser mecânico (ponta do aparelho), barotrauma (insuflação excessiva) ou térmico (uso de eletrocautério). A apresentação clássica envolve dor abdominal súbita e pneumoperitônio. Historicamente, o pneumoperitônio era uma indicação absoluta de cirurgia. Contudo, a evidência atual sustenta que pacientes estáveis, com preparo intestinal adequado e sem sinais de peritonite, podem ser tratados com sucesso de forma conservadora. A tomografia computadorizada é o padrão-ouro para avaliar a extensão do ar livre e a presença de complicações associadas. O manejo envolve internação, repouso intestinal, hidratação venosa e antibióticos de amplo espectro, com monitoramento clínico rigoroso nas primeiras 24 a 48 horas.
O manejo conservador, também conhecido como 'abordagem de Sydney', pode ser considerado em pacientes que apresentam evidência radiológica de perfuração (como pneumoperitônio na TC), mas que permanecem clinicamente estáveis. Os critérios principais incluem: ausência de sinais de irritação peritoneal (abdome em tábua, descompressão dolorosa), estabilidade hemodinâmica, ausência de febre ou leucocitose importante, e um preparo intestinal de boa qualidade realizado antes do procedimento. Além disso, a perfuração deve ser detectada precocemente e o volume de ar livre deve ser pequeno, sem evidência de líquido livre significativo ou coleções extraluminais na tomografia. Pacientes que preenchem esses critérios podem ser monitorados rigorosamente em ambiente hospitalar com jejum e antibioticoterapia, evitando os riscos de uma intervenção cirúrgica de urgência.
A antibioticoterapia é um pilar fundamental do manejo conservador da perfuração intestinal pós-colonoscopia. O objetivo é cobrir a flora polimicrobiana do cólon, que inclui bactérias Gram-negativas entéricas (como Escherichia coli) e anaeróbios (como Bacteroides fragilis). Esquemas comuns envolvem a combinação de uma cefalosporina de terceira geração ou quinolona com metronidazol, ou o uso isolado de piperacilina-tazobactam ou carbapenêmicos em casos selecionados. O tratamento visa prevenir a progressão de uma microperfuração para uma peritonite franca ou a formação de abscessos intra-abdominais. A duração da terapia geralmente varia de 7 a 10 dias, iniciando-se por via intravenosa e podendo ser transicionada para via oral após a melhora clínica e o retorno da dieta, desde que o paciente permaneça afebril e estável.
A intervenção cirúrgica torna-se mandatória se houver qualquer sinal de deterioração clínica ou falha do manejo conservador. Isso inclui o desenvolvimento de sinais de irritação peritoneal generalizada, instabilidade hemodinâmica (hipotensão, taquicardia persistente), febre alta, ou aumento progressivo da dor abdominal. Laboratorialmente, a elevação persistente ou progressiva dos leucócitos e da proteína C reativa também são sinais de alerta. Radiologicamente, o aumento do pneumoperitônio ou o aparecimento de líquido livre em exames de controle sugerem uma perfuração maior que não selou espontaneamente. Nesses casos, a laparotomia ou laparoscopia deve ser realizada prontamente para identificação do sítio de perfuração, rafia primária ou, em casos de contaminação fecal importante, realização de estoma para controle de danos.
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